terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Série: personagens cotidianos




Lá vai ele, sozinho, no meio do nada, no meio do escuro. Caminhando assim num passo lento, meio torto, um andar meio coxo, desvencilhando-se dos carros que por ele passam sem reconhecerem sua pessoa. Ele segue adiante sem bússola, num destino incerto, até que some na escuridão do asfalto, da noite, no meio da multidão.


Da janela do meu carro, assisto à retirada desse senhor já de idade, cujo bigode é mais velho do que eu. Parece-me que sai em busca de um riquixá que tenha a necessária pachorra para levá-lo ao outro lado da cidade, onde mora com mulher e filhos. Muitos filhos. Mas não tantos quanto antes, pois um morreu ano passado, de acidente. No meio da rua, um carro abriu a porta de repente, e seu filho, que dirigia uma lambreta (provavelmente sem capacete), bateu. Foram muitos dias de hospital, que consumiram as já poucas reservas financeiras que ele havia economizado ao longo da vida. O filho morreu, e ele ficou sem nada. Só com a dor da perda. Uma tristeza que ele leva consigo a cada passo que dá.


Creio que por conta disso ele não dirige mais motocicletas. Diz não saber guiá-las. Mas acho que é bloqueio. Um trauma que se refelte em seu dirigir, por meio do cuidado que tem com ciclistas e motociclistas. Dá-lhes a preferência, deixa-os passar com paciência, trata-lhes como se fossem filhos. Eu fico impaciente com tanta morosidade. Esperneio, grito: chalô, chalô! Mas não adianta. Ele segue devagar e sempre, como se não desejasse mais disputar as hierarquias do tráfego.


Todos os dias, ele atravessa a cidade para me encontrar de manhã, em casa, onde me saúda com um sexagenário “Good Morning, sir”. Mostra-me então os poucos dentes que sobraram. Pega a chave do carro, abre a porta e, de vez em quando, o capô para ver o óleo, senta, dá a ignição e põe o cinto de segurança. Gestos simbólicos, que o transformam em carro. Desse momento até o fim do dia, ele e o carro são uma coisa só, até ele desgarrar-se mais uma vez do assento e tornar-se pedestre de novo.

Curiosa dupla personalidade desse senhor, que, de dia, é carro e, de noite, é gente.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Doce mistério



Um buraco negro, diz a enciclopédia, é “um elemento do universo formado no colapso gravitacional”. Essa definição, entretanto, não menciona a outra maneira pela qual se forma um buraco negro: o colapso organizacional.

Essa foi a conclusão a que cheguei depois de que um buraco negro criado por colapso organizacional se formou sobre minha mesa. Foi um processo lento, quase imperceptível, mas constante, que terminou por criar um poderoso ralo sobre minha escrivaninha. Em torno dele, tudo revolve, apesar de não possuir centro aparente de sucção. Após observá-lo muito atentamente, sem conseguir interferir em sua atuação desorganizacional, concluí que ele suga principalmente papéis, cartões de visita, convites, canetas, grampeadores, CDs e, ocasionalmente, meu telefone celular. Poucas são as coisas que conseguem escapar da sua voracidade. O rolo de fita adesiva, por exemplo, até hoje está impressionantemente no mesmo lugar. Deve ser por que até hoje não precisei dele.

Por vezes, o buraco negro regorgita alguma coisa, num movimento que descobri ser típico dos buracos formados daquela forma. Como se fosse mágica, surge algo sobre mesa, que não sei de onde veio, nem como veio e, pior, não sei para onde irá. Os objetos regorgitados podem ser classificados em quatro categorias: (i) muito importante e como não vi isso antes, mas agora é tarde; (ii) pitoresco, colorido e divertido; (iii) conta do mês passado, com envelope fechado ou aberto; e (iv) não tinha jogado isso fora?

Há pouco, dei-me conta de um outro fenômeno: o buraco negro da minha mesa está expansão. Mês passado, conseguiu expandir-se para o sofá, a estante e o chão em frente à porta. Insaciável, parece-me que, agora, está tentando engolir o telefone e os objetos da mesinha ao lado. O computador já sucumbiu, pois iniciou a semana sem conseguir ligar. Os técnicos disseram que era um vírus, mas, para mim, a causa era óbvia: o campo gravitacional em expansão.

Venho contemplando formas de reagir à esse fenômeno da natureza que se instalou em meu escritório. A primeira opção é arrumar a mesa; mas sei por experiências passadas que essa técnica é trabalhosa e nada permanente: o buraco negro volta a formar-se pouco tempo depois. A segunda opção seria conseguir uma nova mesa, ao lado da atual, para ver se consigo esgotar a capacidade de expansão do buraco negro; mas acho que isso enfrentará resistências da pessoa com quem divido a sala.

Resta-me, portanto, seguir observando o funcionamento do “horizonte de acontecimento”, da fronteira de ação desse buraco negro. Como, por ética científica, não gosto de interferir no meu objeto de estudos, vou deixar o buraco negro como está até segunda-feira que vem, para ver se, durante o fim de semana, descubro como revertê-lo e evitá-lo. Mas isso só se eu não tiver coisa melhor para fazer.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Observações



Panela, manteiga. Alho bem picadinho. Pitada de sal e tal. Lentilhas de molho. Mistura tudo. Põe água. Tampa. Pressão no fogo alto.

Balde, sabão em pó em pastilha. Roupas miúdas: cuecas, meias. De vez em quando uma samba-canção. Camisa de microfibra. Mistura tudo. Põe água. Deixa de molho até amanhã.

Porta-lentes. Desatarracha. Lado esquerdo, lado direito. Tira a lente, põe a lente. Duas vezes, dois olhos. Põe o soro. Põe a tampa. Deixa até usar de novo.

Receitas da minha vida. Cada uma para uma necessidade diferente.


sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Rap das Armas



Fecho os olhos. Mente não pára. A métáfora é inevitável: rap das armas.

Parapapapapapapapapa
Paparapaparapapara clack bum
Parapapapapapapapapa

Dizem que é só no Rio. Mas Bombaim mostrou que também faz das suas. No meio da estação de trem, a mais movimentada da Ásia, entraram com AK-47, na hora da cheia. Dispararam.

Parapapapapapapapapa
Paparapaparapapara clack bum
Parapapapapapapapapa

É, a chapa esquentou aqui na Índia. Terroristas islâmicos em dia de fúria? Onde está o Michael Douglas? Ninguém viu. Mas ele estava lá, disfarçado de mulçumano do Paquistão, atirando na massa disforme de pessoas que saía do trem. De onde vem tanta fúria para gerar um dia assim? Religião? Sei não... Tem mais cara de país islâmico com ciuminho do êxito do irmão hindu. Bobo, feio, chato!

E agora, José?


quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Chororô, nhém-nhém-hein?


Descabelado, todo suado, armafanhado, óculos tortos, correndo para todos os lados meio enlouquecido, sem tempo para nada, estafado. Estados e emoções que descrevem os útlimos 60 dias da minha vida. Tudo pelo I Festival de Cultura Brasileira na Índia, produzido e organizado pela Embaixada. Eventos entre 11 de outubro a 22 de novembro. Mas o trabalho começou antes e ainda não terminou. Valha-me Deus...

Pois é, caros leitores, essa foi a razão por que fiquei tanto tempo sem dar as caras por aqui; razão que se complementa com o fato de eu ter ficado doente, hospitalizado depois do Festival (quem agüenta um ritmo desses?). Mas, passado o susto, volto à minha existência virtual. Saravá!

Foram dias de frevo, violão, piano e guitarra; dias de arte e fotografias; dias de capoeira e história. Tudo correu bem, saiu bonito, fiquei orgulhoso. Muito orgulhoso. Quero mais! Mas só ano que vem, que eu também sou filho de Deus. Axé. Se bem que ainda não acabou, é verdade. Ainda falta uma festa aí pela frente – Sushi Samba – e esse festivalzinho de cinema etnográfico. Mas depois, em compensação, é esperar 2009 deitado na rede. Uáááá (bocejo).

Bem, agora é ficar olhando o tempo passar, dedicando-me a meu novo hobby: a culinária. Ok, ok. Sei que é realmente demais chamar o que faço na cozinha de culinária. Está mais para cagada. Mas o que quero dizer é que ando me aventurando no mundo dos alimentos preparados para consumação própria. Já sei fazer arroz e purê de batatas. Tentei fazer feijão, mas não tive sorte. Acho que vou ter de comprar uma panela de pressão. Hoje preparei um “hamburguer de tofú e espinafre”, a partir de receita da internet. Está intragável.

É, antes de culinária ainda tenho muito o que aprender sobre cozinha...



quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sete sentidos, várias lições

Pedra, pau, terra e cascalho; cimento, vidro, espelho. Lixo, muito lixo. Pó. Os elementos são conhecidos, mas o conjunto que eles compõem nesta parte do mundo é novo, intrigante. Nesse todo, misturam-se ainda as árvores, que, apesar de abundantes (há quem diga, com orgulho, que Délhi é a cidade mais verde do mundo), parecem perdidas, fora do lugar. A figura se completa com o tingimento de cores variadas: a cor do acostamento, a cor dos riquixás, dos tapumes do metrô, dos turbantes, das roupas das pessoas… Cores vivas e desbotadas ao mesmo tempo. Paradoxos em carne viva, a cada esquina.

Para digerir inteiramente a experiência, a primeira coisa a fazer-se é treinar o olhar. Isso leva tempo. A gente aprende na escola que a visão é um dos sete sentidos, mas o que falta dizer é que os olhos não nascem sabendo ver. Precisam, eles também, aprender o seu métier. Isso leva tempo e exige flexibilidade e desapego. Não é algo banal.

Já os ouvidos… Ah, os ouvidos! Esses aqui aprendem rápido. O som constante da buzina dos carros, dos comerciantes solicitando incansavelmente sua atenção, dos mendigos batendo ao vidro do carro... Tudo oferece a pressão necessária para que a audição comece logo a discriminar entre o que ouvir e o que ignorar. O perigo é começar a ignorar tudo.

Os limites dos demais sentidos também são testados aqui: o olfato, com o constante fedor no ar (que, mais tarde, se torna apenas o cheiro daqui); o tato, com a sujeira na sola dos pés (andar de sandália é uma experiência bem diferente da que se tem no Brasil); o paladar, com os temperos exagerados da culinária local (a pimenta às vezes é tanta que queima língua, o que faz sumir o gosto das coisas por um tempo). Para o marinheiro de primeira viagem, tudo pode ser um desafio aqui.

Mas o barato de toda essa história é ultrapassar esses desafios, é perdurar na adversidade, até dar-se conta de que nunca foi, de fato, uma adversidade; até dar-se conta de que tudo isso é simplesmente humano. É aceitar que os daqui desenvolveram uma cultura específica, ajustada às condições locais, e que, apesar de ser, é certo, um modus vivendi bem diferente do que estamos acostumados, é humano mesmo assim. E como somos todos seres humanos, todos temos a mesma capacidade de viver dessa forma.

Uma vez ultrapassada essa fase, tudo começa a ficar mais fácil. A má vontade do motorista de riquixá, as tendências estelionatárias dos taxistas e dos pequenos comerciantes, a hierarquia e o preconceito inerentes ao sistema de castas acabam virando parte do cotidiano. Opera-se, nesse momento, o milgare da vida, pois só ela, com a rotina incansável do seu dia-a-dia, é que consegue fazer que Ocidente e Oriente se unam num mesmo tempo e espaço.

Para os que estão dispostos a alargar os seus limites internos, morar na Índia é o melhor remédio.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Arroz


Queridos leitores, antes de mais nada (ou antes de tudo, para os que preferem essa expressão), peço-lhes desculpas pelo longo silêncio. Não é que tenha desejado terminar o blog ou atualizá-lo com menos freqüência. Não é nada disso. Na verdade, chamem-me de doido os que nisso não acreditam, mas acho que foi algo kármico.

Sim, refletindo hoje à luz do sol da tarde, creio ter entrado em uma nova fase da minha estada na Índia. Já se vão seis meses desde que aqui cheguei, e a fase dos descobrimentos (ou era dos descobrimentos, para os que preferirem dar um tom ”Hobsbawm” à minha narrativa) já encerrou seu ciclo histórico.

Adentro agora calmamente, quase sem dar-me conta, em um novo momento, no qual a rotina passa a imprimir seu ritmo, a ditar minhas experiências. Uma rotina que é imperceptível, sutil; o próprio cotidiano da vida.

Por favor, meus caros leitores, não me compreendam mal: não é que a Índia tenha deixado de surpeender(-me); não é que coisas raras e estranhas não aconteçam mais. Pelo contrário! Acontecem sim, e com freqüência. Mas pode talvez ser que já me tenha acostumado a elas, e, por isso, já não me inspiram a escrever com a mesma intensidade do passado.

Demorei a ver e a aceitar isso. Tive de passar longos momentos entedientes e enervantes, sentado à frente da tela branca do computador, sem sequer conseguir compor uma frase decente. Só então dei-me conta de que o dia-a-dia se havia imposto sobre minha vida.

A comprovação final, curiosamente, veio hoje, enquanto escrevia este relato. Vejam vocês, queridos leitores, que hoje, em vez de sair para jantar no meu shopping, resolvi lançar-me à empreitada inédita (ao menos para mim é inédita) de fazer arroz em casa. Duas xícaras de arroz, meio tablete de caldo Knorr, quarto xícaras de água. Horas e horas de preparo (o fogão aqui em casa parece novo e maneiro, mas é uma porcaria). A água seca, e provo resultado. Mas me arrependo imediatamente. Realmente, ainda tenho muito o que aprender em matéria de cozinha.

Moral da história: quando o simples ato de preparar arroz vira novidade, é porque a era da rotina chegou.


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Nos palácios do rei Akbar




Mil e uma noites. Noites de luar intenso. O rei descansa em sua torre de pedra – uma torre aberta, sem paredes, que não é uma prisão – feita para que ele pudesse observar a lua cheia, sentir a brisa e suas poesias. O rei era um poeta, um admirador dos pequenos detalhes da vida.

Vivas a Akbar, o grande. Nele, convergiam as religiões da Índia. Seus templos ecléticos – seus palácios! – refletiam arquitetonicamente o sincretismo que ele próprio adotou. Ao trono mughal, além de caligrafia, pôs também pavões e cobras; nas paredes e pilastras de seus palácios e mesquitas, os arcos retilíneos ganharam detalhes rebuscados e curvas sinuosas. Sua linhagem vinha da Ásia Central, mas seu peito acolheu todo o Hindustão. Para o cidadão comum, isso seria heresia; mas para o rei, isso foi magnânimo. Allahu Akbar!

Cada passo que deu, deu para dentro da Índia, em direção ao coração da Índia, em direção a seu próprio coração. Ao sul a capital. Nada de beirar as fronteiras do norte, de onde vieram seus antepassados, para onde queriam voltar seus antepassados. Ordenou fosse adotada esta terra, esta gente, este lugar. A mensagem de Akbar: não sejamos estranhos em nossa própria terra.

Em Agra e Fatehpur Sikri, vêem-se até hoje seus mosaicos construídos em pedra vermelha. Um vermelho cheio de nuanças e tons, pontilhado por gotas brancas de não sei o quê. Na presença de Akbar, as próprias pedras recusaram-se a ser de uma cor só.

Suas histórias sobrevivem até hoje na Índia, assim como as presenças sincréticas em sua vida: Birbal, o conselheiro; Jodhaa, a esposa hindu e rajput.

Os filhos de Akbar, no entanto, não souberam seguir seu exemplo. Jahangir voltou para o norte, para Lahore, para a Caxemira; Shah Jahan voltou para a Agra, mas não para as lições de seu avô. Preferiu o mármore suntuoso e as linhas e ângulos retos, tão presentes em seu famoso mausoléu*. Aurangzeb, radical, levou ao extremo seu fundamentalismo e, ao morrer, matou também o Império, que já não mais merecia sobreviver. Eram conquistadores ou reis do mundo, do universo**. Mas nenhum deles era o grande**. 

Sem Akbar, sem tolerância e aceitação, o Império caiu de maduro.


* Shah Jahan foi quem ordenou fosse construído o Taj Mahal.

** "Jahan" significa mundo, em persa; e "gir", conquistador. "Alam" quer dizer universo (Aurangzeb intitulava-se Alamgir). "Akbar" significa, literalmente, "o grande".

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A noite dos gafanhotos.


Independência da Índia. Feriado nacional. Fim de semana prolongado. O que fazer? Não há muitas opções: é ficar em casa ou viajar. Surge a oportunidade de voltar a Agra com Eric e Marcela, amigos do trabalho. Vou.

O carro chega na hora marcada. Eu já estava a postos e disposto. O dia amanheceu bonito, eu estava cantando um clássico da Alcione: Ilha de Maré. Bollywoodianamente dançava na rua, mimetizando com a boca as palavras da canção.

O motorista sai do carro e dá a conhecer ao mundo a carranca com que acordou de manhã. Comeu e não gostou. Ou melhor, não comeu e não gostou, pois não havia tomado café da manhã. Logo viria a saber o porquê de tanto desgosto com a vida: o seu nome. Mulçumano de carteirinha, em vez de chamar-se Ahmed ou Mohammed, o motorista chamava-se Viki. Deve ter sido sacaneado a vida inteira pelos coleguinhas de escola e mesquita. É provável que, na adolescência, tenha tentado ser homem bomba, mas suponho que nenhuma organização terrorista tenha concordado em ter um mártir com esse nome. Acabou no ramo do turismo, como motorista de van na Índia. O triste fim de Policarpo Quaresma.

A viagem começa às 8h30 da manhã. Tarde para o tradicional padrão das 6h da manhã. Bastante trânsito na rua. Só chegamos em Agra às 13h, depois de passar no Maharaja Hotel, um hotel de beira de estrada onde o motorista abusadamente impôs uma parada de meia hora para tomar seu café da manhã.

O Hotel onde almoçaríamos não conseguiu lidar com o fato de que não tínhamos feito reserva para seu concorridíssimo restaurante 5 estrelas. Era descaso demais com sua pompa de hotel exclusif. Descemos ao restaurante, e, de fato, o lugar estava cheio... Cheio de mesa vazia. Mesmo assim, o Hotel fez questão de não perder a pompa e nos deixou esperando em pé, até que nos sentamos quase que por conta própria.

Reflito, em silêncio, sobre os curiosos padrões em que parecem se dividir as viagens na Índia: ou tudo vai muito bem, obrigado (as pessoas são gentis, o motorista é profissional, você é bem-vindo e bem recebido) ou tudo vai aos trancos e barrancos, com altas doses de desrespeito e abuso. Bem-vindo à Índia.

Pouco há do que reclamar a partir daí. A satisfação natural que decorre de um bom almoço foi completada pelo deslumbre que se sente ao ver, mesmo que pela segunda vez, a esplendorosa tumba de mármore da rainha Mumtaz Mahal. O dia terminou com a visita ao Forte de Agra e sua grandiosa vista do Taj.

Cansados, tocamos para o Hotel, que, segundo o guia, era “pertinho” de Agra. Doce ilusão. Demoraríamos pelo menos 2h para chegar no tal Hotel, que ficava em Bharatpur, logo depois de cruzar a fronteira com o Rajastão, onde tivemos de parar brevemente numa guarita para pagar a “taxa interestadual”: uma espécie de ICMS que incide não sobre o movimento de mercadorias, mas de pessoas. A Índia parece ter levado às últimas conseqüências a mercantilização da vida.

Ao cruzarmos a fronteira, entramos no estado indiano mais conhecido por seu fabuloso deserto: o Deserto do Thar, dito o sétimo maior do mundo. Mesmo lá, chove – pouco, mas chove – durante as monções. E tinha acabado de chover. As ruas estavam molhadas (leia-se, barro por todo lado), e havia uma infestação de insetos. Mas não era mosquitinho não. Eram gafanhotos. Gafanhotos coloridos, claro. Se não fossem coloridos, não seriam indianos.

Chegamos ao hotel em meio a uma nuvem de gafanhotos. Era quase como se estivéssemos numa excursão bíblica, para conhecer as 7 pragas do Egito. Mas o pior era que o Hotel, por ser um “Heritage Hotel” (uma espécie de Maharaj Hotel de beira de estrada, mas com um fundo de verdade), era todo aberto e não tinha aquele ambiente hermético, típico dos hotéis pasteurizados de hoje em dia. Havia, portanto, gafanhotos por tudo quanto é lado. Desde a recepção até o restaurante. Aliás, solicitei fosse meu check-in feito no restaurante, onde havia menos gafanhotos, pois não tive estômago para encarar a infestação na recepção. Enquanto preenchia os campos do papel, cheguei à conclusão de que a “heritage” desse hotel era uma herança maldita.

O concièrge do Hotel me escoltou até o quarto. No caminho, a visão do inferno. Na estreita escada por que tive de subir para chegar ao quarto, fui assediado diversas vezes por gafanhotos desnorteados pela luz. Quando cheguei no corredor final, o chão inteiro (e a porta do quarto) estavam tomados por insetos. O concièrge, notando em minha face uma mistura de desgosto e terror, apagou a luz para tentar me confortar. Foi pior. Acabei pisando nuns cinco sem perceber. Senti-me como Indiana Jones em busca da arca perdida (no caso, o quarto perdido).

À noite, na cama, no ar-condicionado, ouvia gafanhotos e mais gafanhotos batendo alucinadamente na janela do quarto. Isso sem falar dos grilos que saíam pelo ralo do banheiro. Parecia filme de terror: “a noite dos gafanhotos assassinos”. Respeirei fundo, olhei para as paredes do quarto uma última vez antes de apagar a luz. Tudo limpo. Rezei pai nosso e ave maria e fui dormir.

À noite, sonhei com a Índia que conheci oito anos atrás. Nessa época, passei também, durante as monções, por infestação similar: só que, no caso, era de lesmas. Acordei mais leve. Dei-me conta de que isso é o que a Índia singnifica para mim: um eterno desafio, talhado para me tirar da minha zona de conforto e esgarçar ao máximo meus limites. É isso o que me atrai aqui.



segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Diário da África


Quem quiser saber mais sobre a África lusófona, recomendo fortemente a leitura do blog DIÁRIO DA ÁFRICA, escrito por um jornalista amigo meu, Carlos Alberto Jr.

Enquanto eu resolvi vestir o paletó de linho e sair por aí pela Índia, ele ficou de calça jeans e camisa mesmo, e resolveu fazer um diário sobre seu dia-a-dia em Luanda, Angola.

Vale à pena! E vale tanto que resolvi inaugurar, com o Diário da África, minha lista de Blogs recomendados.

domingo, 10 de agosto de 2008

Embalos de sábado à noite



Quarta-feira de chuva. Monções voltaram para lembrar que ainda estão aí. Trânsito caótico. Mais caótico que o normal. Preso no carro, claustrofóbicamente preso no carro; preciso sair, mas não sei para onde ir. Casa é longe demais. Prefiro parar, ver um filme talvez. "Mr. Francis, toca para o Connaught Place". "No sir, very bad traffic there sir." E agora? Enfrentar as ruas até meu shopping está fora de cogitação. Vem-me à mente uma idéa que, há muito, espreitava os cantos negligenciados da aula de dança. Era quarta-feira, dia de aula no Hotel Ashok. Vam'bora.


A aula acontece no subsolo do Hotel, numa discoteca chamada Capitol. Olho à minha volta; sou o único ocidental. Cobram 1.500 rupias por um mês de aula. Achei meio carinho. Mas resolvo pagar uma aula experimental. Poucos segundos depois, a professora anuncia o estilo de dança que será ensinado ao longo do mês: valsa vienense.


O quê?!? Valsa Vienense? Desde quando esse gênero faz parte do "Isso é sério?", pergunto perplexo. Era sério. Os professores tomam o centro da pista e ensinam os passos: um pra frente, um pra trás; dois para o lado esquerdo, outros dois para o lado direito. É preciso dar uma curvadinha nos joelhos a cada passa lateral. Plié! Ensaio os passos, e os professores me corrigem: "não mexa tanto a cintura; isto aqui não é salsa, é valsa!". De súbito, todas os meus devaneios de reinar absoluto numa aula de dança na Índia vão pelo ralo.



Ensaiados os passos, o DJ põem a música. Em vez da esperada música de câmara, a vitrola toca o que eles chamam aqui de indi-pop, o estilo bollywoodiano de música. Sinto-me como se estivesse num filme surrealista de Buñuel: aula de dança numa discoteca de hotel, dançando valsa vienense ao som de Bollywood. Alguma coisa está fora da ordem. Por sorte, não era o único marinheiro de primeira viagem naquela noite. Havia também outros, de forma que consegui pegar como par uma outra menina também recém-chegada: Simran. Uma agente imobiliária, que era designer gráfica nas horas vagas. Mais um elementos surrealista na minha noite.


Finda a aula, recebo um convite para a festa no sábado, em comemoração aos 60 anos da academia. Festa à fantasia; tema: Havaí. Chega o sábado, tiro o pó da minha camisa florida, visto meu chapéu panamá. Garboso, vou à festa que também é num hotel. Chego lá e percebo que os que querem dança têm de fazê-lo num palco, observados pelos olhares atentos de uma platéia sentada. Constrangedor. Encontro a professora, e ela me diz, dentro em pouco, a festa passará para o lado de dentro do salão. Maravilha. Vou deixar para dançar lá dentro, mais privê, menos exposto. A dança no palco acaba, e todos entram. No salão fechado, o DJ começa com indipop. Tudo bem. A segunda música certamente será salsa. Mas não. O indipop não pára. Vara a noite. Frustrado, vou falar com a professora. Pô! Se quisesse ir à boite, não iria lá e nem iria fantasiado! Mas ela diz que não tem jeito: uma vez que o indipop começa, não pode mais parar.


Volto frustrado para a casa. Retiro meu chapéu panamá como um general retira seu exército da guerra, Olho para trás, para a desta, e percebo: seja a música valsa ou salsa, aqui só se dança indipop.




quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Que se Skoda


Novelas, novelas. Das 6, das 7 e das 8. Pelo menos, no Brasil, as novelas têm horário certo. Aqui, na Índia, parece que fazem parte, naturalmente, de cada projeto da vida. A compra do meu automóvel, por exemplo, tem sido uma bela novela. Após muitas idas e vindas, não só na compra mas também no aluguel de um carro, meu veículo está finalmente para chegar. Mas, como uma novela nunca acaba de repente, e o último capítulo sempre se repete no sábado, a minha está terminando, mas ainda não terminou.

Tudo começou com a visita do pessoal da Skoda, a montadora Tcheca transformada em Alemã (o grupo Volks adquiriu-a recentemente), que instalou fábrica em Aurangabad, no estado da Maharashtra (cuja capital é Bombaim) para vender para o mercado indiano. Essa visita é a primeira parte do longo processo por que um diplomata tem de passar para adquirir um veículo novo, sem imposto, na Índia.

A segunda parte é a tal da carta de isenção, dada pelo governo indiano, que demora, sozinha, um mês para sair. Olhando-se a carta não se compreende o porquê de tanta demora. Se a carta tivesse letras em alto-relevo e um papel bom, como convite de casamento, até se justificaria a demora. Mas não é nada disso. É apenas a concretização de um processo burocrático; é a transformação da burocracia em papel (aliás, sua forma preferida de concretizar-se). E esta transformação demora.

A fase seguinte é a mais dolorosa: o cheque. Aqui, paga-se tudo à vista, e com carros não é diferente. Poderoso checão de 10 mil dólares. É até mais difícil tirá-lo do talão. Parece que não quer sair. E confesso que, agora no finalzinho da novela, teria preferido que não tivesse mesmo saído... Teria sido mais fácil adquirir o veículo com imposto e tudo, e esperar o reembolso. O problema é que, dizem as mais línguas, o reembolso nunca sai. Aqui na Índia, só o desembolso funciona. É fato.

Concluída essa fase, a bola fica com a fábrica, que produzirá o carro especialmente para o diplomata. Foi-me prometido que o carro sairia do forno em duas semanas, um mês no máximo. Mas já se vão dois meses e meio, o dinheiro já saiu da conta, e nada de carro. “Fabia, cadê você, meu amor, que não chega? Não queres compartir nosso lar? Meu amor, venha, venha que vos espero.” Meus pensamento desesperam-se em devaneios, compondo cantigas de amor com o nome do modelo do carro: Fabia.

Após dias sem notícias e ligações vãs, a palavra chega a meus ouvidos que o carro deverá estar em Délhi na segunda-feira. Festa, celebrações! Durmo sossegado. Mas, alegria de pobre dura pouco. Chega segunda e nada. Cadê o carro? O gato comeu. Resposta padrão: it will take some time. Next week. Next week.

Next week uma ova! Ligo para o Mr. Vasishtha, da concessionária. Vasishtha, explique-se, é o nome de um grande sábio indiano (um rishi!), que era dono da vaca outorgadora dos desejos. Ligo para ela e digo-lhe: “He Maharishi! Mera car kahan hai?* Use sua vaca outorgadora dos desejos para concretizá-lo!” Ele ri e diz: next week only, sir. O sangue sobe à cabeça. “Por quê?!?” Constrangindo, ele diz: “dê-me 10 minutos”. Dou.

Dez minutos depois, Vasishtha liga. Meu carro já saiu de Aurangabad e está no caminhão. O problema é que o caminhão ficou preso na estrada, por conta de uma multidão de adoradores de Shiva, uma das entidades máximas do hinduísmo, que resolveu marchar em pregrinação justo no momento em que a cegonha estava na estrada. Carro agora só na quarta à tarde.

Dois dias! Só dois dias! Regojizo-me. Chega quarta, cadê o carro? Continua na estrada. Por quê? Ligo para a transportadora (chega da mediação dos rishis!) e descubro que houve falta de diesel nos postos das rodovias, e o caminhão ficou sem combustível e atrasou a entrega. Agora, só sexta-feira.

Eterna expectativa. Só me resta esperar o fim da semana. Enquanto isso, tento entreter-me pensando que outro problema imprevisível poderá ocorrer e atrasar meu carro, mais uma vez, para “next week”. Esforço inútil, no entanto. Nenhuma imaginação do mundo, por mais criativa que seja, consegue prever os problemas que só a Índia, com sua realidade peculiar, consegue produzir.


*He Maharishi! Mera car kahan hai? = Ó grande sábio! Onde está meu carro?

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Soturno em dó menor opus postumo

Já era hora do almoço, e eu estava assim, meio cansado, olhando para o infinito, para o nada, como se o nada pudesse ser visto. Pensava longe, a visão a descansar no verde da relva do jardim da Centro de Cultura Italiano de Délhi, “o maior da Ásia” ouvi dizer. Mesa no lado de fora; lá dentro, no ar condicionado, não havia lugar. Sentia-me numa estufa, como se fosse vaso em que planta logo brotaria. O suor se encarregava de me regar.

A comida já havia pedido. Esfregava os olhos, óculos sobre a mesa. Mãos na cara, e suspiro. Cansaço. Era segunda, e domingo foi um dia cheio. Cheio de problemas. Curioso domingo ser cheio de problemas. Dia de Faustão (ou de Chacrinha, para os saudosos); de Fantástico; de casa da vovó; de pôr do sol que faz lembrar escola na segunda-feira.

Mas aqui na Índia o domingo não é dia de nada disso. Talvez seja dia de ruas mais vazias e olhe lá. Domingo em hindi é ravivar: dia do sol. Domingo de sol. E que sol.

Fim de semana passado fiz compras. Estante; cadeira; ipod. Ainda saí pra jantar no fim do dia. Meu lado capricorniano não permite que eu continue a me sentir bem depois de tanta gastação. Mea maxima culpa.

Domingo vou abrir o presente que me dei. Arranco bestialmente o plástico que envolve o pacote. Brilhe, minha pequena pérola negra de alta tecnologia. My precious. Ligo o computador, instalo o programa: itunes. Olho, olho. Não consigo passar o que já tinha no aparelho para o computador. Frustração. Desligo o computador. Hora do almoço. Volto. Religo. Religo. Religo. Nada. Meu computador ficou com ciúme do meu novo amor tecnológico e entrou em conflito com o software. Deixou-me só, num domingo, na Índia.


Acordo segunda embaralhado, sem saber o que fazer. Chego no trabalho. Ligo para o 1800. Fico uma hora com o atendente no telefone. Tentamos de tudo. Até ressucitar o paciente com configuração anterior. Mas não adiantou. Às 13h do dia 13, meu computador é declarado morto. Posso ressucitá-lo, mas sua essência (leia-se, meus arquivos) está perdida. Perdida mesmo, pois até o pen drive de backup sumiu.

Segunda-feira, dia 14. Eu me vejo olhando as árvores do jardim. No ar condicionado, não havia lugar. Chega de tecnologia para mim hoje.

POST DEDICADO À MEMÓRIA DE:



"MITSUBICHO"

Jun. 2006 - Jul. 2008




sábado, 19 de julho de 2008

Ônibus 174

Cimento, terra e água, barro, cascalho. Materiais que compõem as ruas de Délhi. Muito tapume do metrô também. E carros, muitos carros. E bicicletas, e riquixás, e rebanhos de vaca, e motocicletas levando famílias inteiras. Mas os reis de aço incontestáveis dessas ruas são os ônibus. Grandes e barulhentos, com lataria cheia de cicatrizes que denotam as incontáveis batidas e atropelamentos em que já se envolveram, os ônibus são o terror das ruas. “Vrrrum! Vrrrum! Saiam da frente! Saiam da frente!”

Aqui não é como o Rio de Janeiro, onde os ônibus tentaram reinar, mas não conseguiram devido à audácia do motorista carioca, cuja maior diversão parece ser fechá-los sempre que possível. É quase como se o som do freio a ar fosse bálsamo para os ouvidos estafados de quem está atrás do volante.

Os ônibus aqui representam, portanto, a violência urbana, que, de outra forma, praticamente não existe. São eles que matam, batem (parece que os ônibus atropelam e matam cerca de 100 pessoas por mês em Délhi). Os ônibus representam também a poluição intensa que o caótico trânsito de Délhi emite diariamente. Enfim, ônibus aqui é tudo de ruim.

Mas, por contas das ditas “cicatrizes” em sua imagem, o governo da cidade está tentando substituir as famigeradas lotações que operam a chamada “linha azul”. A assassina linha azul. E é por conta disso que, hoje, se vê ônibus da Marcopolo rodando por aqui. Mas, como não se pode substituir toda a frota em um estalar de dedos, os governo decidiu também substituir o diesel pelo gás natural.

É aí que vem a maior das ironias. Outro dia, voltando para casa, descendo a “Outer Ring Road”, passa-me ao lado um ônibus desses velhos que dizia “the greenest bus line in the world, operated on CNG”. Greenest? Rapaz, só se for por conta da grama que cresce nas covas dos muitos que esses ônibus já mataram.

Quem diria. Sem saber, a assassina linha azul já havia começado, anos atrás, a realizar processo de “troca de créditos de carbono”: a cada um que mata, mais verde e, portanto, mais fotossíntese! A assassina linha azul? Que nada! A pioneira linha azul!

PS: Hoje, no trânsito, pensando sobre a tal estratégia "pioneira" da linha azul, cheguei à conclusão de que, de pioneira, ela não tem é nada. É que aqui não enterram, mas cremam, os mortos! Portanto, a cada morte, mais fumaça no ar. Na verdade, a linha azul, além de poluir ao funcionar, polui ao matar também! É assassina mesmo!