sexta-feira, 25 de abril de 2008

Efeito placebo



A semana começou preguiçosa, com uma daquelas segundas-feiras que se segue a feriados prolongados e que ninguém quer que chegue. Apesar do começo arrastado, a semana trouxe para mim uma grande novidade: sem cerimônias pomposas ou convites formais, recebi a chave da cidade, que me foi entregue pela cidadã mais ilustre desta capital, a Sra. Délhi belly*!

Sim, o ritual de iniciação de todo estrangeiro começou para mim domingo passado e seguiu semana adentro. Ou melhor, banheiro adentro. Passei a semana de molho no hotel, numa espécie de confinamento contemplativo por que todo estrangeiro tem de passar, para ter certeza de que quer mesmo viver por aqui... E comer por aqui.

Foram dias de pepto-zil na veia, de aspirina C para diminuir a febre, de antibióticos e de medicina ayurvédica. O remédio mais amargo, contudo, foi a exposição intensiva à televisão indiana, que, inevitavelmente, tive de enfrentar. Confesso que, no final da minha quarentena de sete dias, não sabia mais o que tinha sido pior: ter ficado doente ou ter de assistir à televisão. Acabei viciado no canal punjabi, que transmite cantos sikhs direto do Golden Temple.

Na quarta-feira, ainda desidratado e com dor de cabeça (mas já bem melhor), terminei buscando o auxílio profissional de um médico que conheci por coincidência na recepção do hotel: Dr. Pabrai. Do alto de seus 56 anos de idade, Dr. Prabai usava uma peruquinha marota para esconder a careca da meia-idade (mas que lhe dava a autoconfiança necessária para competir com o Dr. Vora, o outro médico do hotel, que já tinha 80 anos). Carregava também consigo uma pasta 007, que parecia ser do tempo do Sean Connery. Dr. Prabai recomendou-me dois antibióticos, que tomei a contragosto. Recomendou-me também dois livros, que, se comprar, comprarei a contragosto. Mas comi com gosto as quatro bananas com açúcar que ele pediu para o hotel me trazer. Obrigado, Dr. Prabai. Já me sinto melhor!

* Delhi belly (o mal de Montezuma local) é a severa dor de barriga que acomete a todos os estrangeiros que se aventuram por aqui. Funciona como um verdadeiro rito de passagem.

PS 1: Algumas fotos para ilustrar a história acima:
http://picasaweb.google.com/paletodelinho/EfeitoPlacedo

PS2: 10 segundinhos do canal sikh para vocês:


sexta-feira, 18 de abril de 2008

Rotina

Nove da manhã: o relógio dá a deixa para começar o dia. Ainda não estou pronto; sempre falta alguma coisa. O terno já pus, mas onde está minha pasta, meu relógio? 9h10: meu Deus, tenho que sair, já estou atrasado, mas não posso deixar o quarto assim, preciso arrumar um pouco as coisas (é sempre bom desconfiar um pouco do staff do hotel). Será que fechei o cofre?

Bem, vamos lá. Sempre tenho a sensação de que esqueci alguma coisa. Carteira, celular, chave… Meus óculos! Volto. Pronto, agora tudo parece estar aqui. Revisto os bolsos uma segunda vez enquanto espero o elevador.

Térreo. Caminho sobre o mármore da recepção do hotel com passos resolutos, que não deixam transparecer meu medo. Sigo em direção à porta. Lá vou eu, mais uma vez, me desentender com os motoristas de riquixá... “São menos de vinte rúpias até a Aurangzeb Road, Maharaj! Você sabe disso! Por que insiste em me cobrar cinqüenta? Itna nahin hai*!” Haja paciência...

A porta do hotel não é automática, mas abre sozinha. O porteiro está sempre a postos. Todos os dias, em posição de sentido, ele bate continência e diz “Good morning, sir!” Olho de soslaio, com um sorriso amarelo, e penso que ele deve ficar frustrado quando saio de fininho, sem que ele veja e sem que consiga me desejar bom dia.

Vejo a hora e acelero o passo. O barulho ensurdecedor da sola de couro do meu sapato batendo no chão me faz lembrar, subitamente, de que estou usando um terno. Respiro fundo. Faço de tudo para não sentir vergonha de estar de terno num lugar em que ninguém usa esse tipo de roupa.

Ainda contemplando a enchurrada de sentimentos envolvidos no processo de sair do hotel, sou interrompido bruscamente por uma forte buzina de carro. Olho para trás e vejo um motorista indiano guiando seu Honda City com ar (e velocidade) de campeão de Formula 1. São os inconvenientes de estar hospedado em um hotel que divide seu terreno com dois prédios residenciais, cujos moradores parecem não ter muita paciência com os hóspedes que saem humildemente a pé.

Após cruzar os portões do hotel, não consigo mais conter a vergonha de estar de terno. O olhar arregalado de cada motorista que passa na Subramaniam Bharti Road faz-me sentir uma peça em exposição. Os pedestres apreciam-me com curiosidade. É difícil conformar-se em ser o exótico num lugar em que há homens de cabelos pintados de acaju (aqui fazem luzes de acaju) ou de turbantes coloridos e barbas até o peito passeando livremente pela rua. Alguma coisa está fora da ordem... (o problema é que essa coisa sou eu).

Caminho até o ponto de riquixá mais próximo, no Khan Market. Vou pela rua, desafiando o trânsito (a calçada está ocupada por poças d’água, montes de areia, uma árvore e gente comendo). Cheguei. Agora vamos, Maharaj; vamos sem aporrinhação que já está tarde. E se me pedir 50 rúpias, juro que te faço sentir a fúria do rei Aurangzeb, que matou seus oito irmãos e aprisionou seu pai doente para subir ao trono...

* "Itna nahin hai" significa "nao é tudo isso", em hindi

PS: Filmei, com a minha maquina fotográfica, o caminho do hotel até o Khan Market (que é uma espécie de "Fashion Mall" daqui). Peço perdão pela minha fraca habilidade de camerman e compreenderei se vocês só assistirem aos primeiros segundos do filme.

http://www.youtube.com/watch?v=Fpilf08-i70

terça-feira, 15 de abril de 2008

Choque cultural, às avessas


Segunda-feira, dia 14/04/2008. Feriado nacional: “Ram Navami”, o nascimento de Rama. O Sol resolveu comemorar escaldando os transeuntes desavisados. Nem dá vontade de sair do hotel. Da janela, dá para ver a fumaça quente que emana das ruas; o pó parece onipresente. Délhi revela-se um verdadeiro deserto.

Medito, como, canto. Já é meio-dia. Aqui dizem que só os cães loucos e os ingleses saem à rua nessa hora. Acho que vou ter um dia de cão...

O bafo quente no rosto, o calor sufocante que incomoda e desidrata, o barulho inquietante das buzinas e motores, o cheiro inconfundível de estrume, o lixo que se acumula em frente ao muro: a Índia tem uma capacidade impressionante de estimular todos os seus sentidos ao mesmo tempo, seja para o bem ou para o mal. Respiro fundo; solto o ar de uma só vez. Avante, homens, à batalha! Missão: almoçar e ir ao cinema.

A recepção do hotel recomenda um shopping center chamado Select City Walk, que fica em Saket, a 180 rúpias de distância ou meia hora de táxi. Dizem que é um shopping novo, “muderno”. Custo a acreditar; já aprendi que não se pode esperar muito da Índia. Revelo à recepcionista que, em tese, já estive nesse lugar: um mercado xexelento a céu aberto, cheio de moscas. Ela diz que me levaram ao lugar errado. Convence-me a tentar de novo.

Meia hora depois, o taxista, num inglês quebrado misturado com hindi, grunhe alguma coisa. Só na terceira tentativa consigo compreender o que diz: “Select City Walk, all this! Thin places*!” Olho para o lado e fico boquiaberto. Ergue-se à minha frente um verdadeiro templo do comércio – Commerce Mandir! Quilos de granito e mármore anunciam, para meu espanto, que a revolução técnico-científica-informacional já chegou à Índia.

Caminho abismado pelo shopping: casais de mãos dadas, meninas modernas (com as pernas de fora!), lojas padronizadas. Sinto-me de volta ao Ocidente. ..

O que aconteceu, meu Deus, com o país que conheci há 8 anos, com prédios cinzas e caindo aos pedaços, com moças acanhadas, vestidas até os calcanhares? A Índia que conheci não existe aqui. Ou melhor, ainda existe, mas ficou lá fora, no calor e na estrada de terra. Provavelmente não conseguiu passar pelos detectores de metal do pesado esquema de segurança da modernidade...

*"Thin" significa "três" em hindi.

PS: Fotos do shopping, que tirei com meu celular:
http://picasaweb.google.com/paletodelinho/SelectCityWalk