terça-feira, 15 de abril de 2008

Choque cultural, às avessas


Segunda-feira, dia 14/04/2008. Feriado nacional: “Ram Navami”, o nascimento de Rama. O Sol resolveu comemorar escaldando os transeuntes desavisados. Nem dá vontade de sair do hotel. Da janela, dá para ver a fumaça quente que emana das ruas; o pó parece onipresente. Délhi revela-se um verdadeiro deserto.

Medito, como, canto. Já é meio-dia. Aqui dizem que só os cães loucos e os ingleses saem à rua nessa hora. Acho que vou ter um dia de cão...

O bafo quente no rosto, o calor sufocante que incomoda e desidrata, o barulho inquietante das buzinas e motores, o cheiro inconfundível de estrume, o lixo que se acumula em frente ao muro: a Índia tem uma capacidade impressionante de estimular todos os seus sentidos ao mesmo tempo, seja para o bem ou para o mal. Respiro fundo; solto o ar de uma só vez. Avante, homens, à batalha! Missão: almoçar e ir ao cinema.

A recepção do hotel recomenda um shopping center chamado Select City Walk, que fica em Saket, a 180 rúpias de distância ou meia hora de táxi. Dizem que é um shopping novo, “muderno”. Custo a acreditar; já aprendi que não se pode esperar muito da Índia. Revelo à recepcionista que, em tese, já estive nesse lugar: um mercado xexelento a céu aberto, cheio de moscas. Ela diz que me levaram ao lugar errado. Convence-me a tentar de novo.

Meia hora depois, o taxista, num inglês quebrado misturado com hindi, grunhe alguma coisa. Só na terceira tentativa consigo compreender o que diz: “Select City Walk, all this! Thin places*!” Olho para o lado e fico boquiaberto. Ergue-se à minha frente um verdadeiro templo do comércio – Commerce Mandir! Quilos de granito e mármore anunciam, para meu espanto, que a revolução técnico-científica-informacional já chegou à Índia.

Caminho abismado pelo shopping: casais de mãos dadas, meninas modernas (com as pernas de fora!), lojas padronizadas. Sinto-me de volta ao Ocidente. ..

O que aconteceu, meu Deus, com o país que conheci há 8 anos, com prédios cinzas e caindo aos pedaços, com moças acanhadas, vestidas até os calcanhares? A Índia que conheci não existe aqui. Ou melhor, ainda existe, mas ficou lá fora, no calor e na estrada de terra. Provavelmente não conseguiu passar pelos detectores de metal do pesado esquema de segurança da modernidade...

*"Thin" significa "três" em hindi.

PS: Fotos do shopping, que tirei com meu celular:
http://picasaweb.google.com/paletodelinho/SelectCityWalk


4 comentários:

Alguma aldeota disse...

Primeiro relato de muitas aventuras que ainda estão por vir, nesta terra de ares quentes e sentires avessos.

Um dia te acompanharei pelas andanças no deserto-moderno-inesgotável.

Um beijo
Isis

Marcela disse...

Oba!!! Adorei!!! Vou ler todo dia.

Beijinho,
Marcela

Cesar disse...

Parece que um novo diplomata poeta está surgindo. Que texto agradável de ler! Escreva sempre para marcar suas andanças pelo mundo.
Bj
L.

Mauro disse...

Flavito,
Sugiro incluir fotos da embaixada, dos colegas do trabalho, do hotel, do estranho veículo verde e amarelo que te transporta, etc. Isso faz com que nos sintamos mais próximos de vc
Bj
MN