sexta-feira, 18 de abril de 2008

Rotina

Nove da manhã: o relógio dá a deixa para começar o dia. Ainda não estou pronto; sempre falta alguma coisa. O terno já pus, mas onde está minha pasta, meu relógio? 9h10: meu Deus, tenho que sair, já estou atrasado, mas não posso deixar o quarto assim, preciso arrumar um pouco as coisas (é sempre bom desconfiar um pouco do staff do hotel). Será que fechei o cofre?

Bem, vamos lá. Sempre tenho a sensação de que esqueci alguma coisa. Carteira, celular, chave… Meus óculos! Volto. Pronto, agora tudo parece estar aqui. Revisto os bolsos uma segunda vez enquanto espero o elevador.

Térreo. Caminho sobre o mármore da recepção do hotel com passos resolutos, que não deixam transparecer meu medo. Sigo em direção à porta. Lá vou eu, mais uma vez, me desentender com os motoristas de riquixá... “São menos de vinte rúpias até a Aurangzeb Road, Maharaj! Você sabe disso! Por que insiste em me cobrar cinqüenta? Itna nahin hai*!” Haja paciência...

A porta do hotel não é automática, mas abre sozinha. O porteiro está sempre a postos. Todos os dias, em posição de sentido, ele bate continência e diz “Good morning, sir!” Olho de soslaio, com um sorriso amarelo, e penso que ele deve ficar frustrado quando saio de fininho, sem que ele veja e sem que consiga me desejar bom dia.

Vejo a hora e acelero o passo. O barulho ensurdecedor da sola de couro do meu sapato batendo no chão me faz lembrar, subitamente, de que estou usando um terno. Respiro fundo. Faço de tudo para não sentir vergonha de estar de terno num lugar em que ninguém usa esse tipo de roupa.

Ainda contemplando a enchurrada de sentimentos envolvidos no processo de sair do hotel, sou interrompido bruscamente por uma forte buzina de carro. Olho para trás e vejo um motorista indiano guiando seu Honda City com ar (e velocidade) de campeão de Formula 1. São os inconvenientes de estar hospedado em um hotel que divide seu terreno com dois prédios residenciais, cujos moradores parecem não ter muita paciência com os hóspedes que saem humildemente a pé.

Após cruzar os portões do hotel, não consigo mais conter a vergonha de estar de terno. O olhar arregalado de cada motorista que passa na Subramaniam Bharti Road faz-me sentir uma peça em exposição. Os pedestres apreciam-me com curiosidade. É difícil conformar-se em ser o exótico num lugar em que há homens de cabelos pintados de acaju (aqui fazem luzes de acaju) ou de turbantes coloridos e barbas até o peito passeando livremente pela rua. Alguma coisa está fora da ordem... (o problema é que essa coisa sou eu).

Caminho até o ponto de riquixá mais próximo, no Khan Market. Vou pela rua, desafiando o trânsito (a calçada está ocupada por poças d’água, montes de areia, uma árvore e gente comendo). Cheguei. Agora vamos, Maharaj; vamos sem aporrinhação que já está tarde. E se me pedir 50 rúpias, juro que te faço sentir a fúria do rei Aurangzeb, que matou seus oito irmãos e aprisionou seu pai doente para subir ao trono...

* "Itna nahin hai" significa "nao é tudo isso", em hindi

PS: Filmei, com a minha maquina fotográfica, o caminho do hotel até o Khan Market (que é uma espécie de "Fashion Mall" daqui). Peço perdão pela minha fraca habilidade de camerman e compreenderei se vocês só assistirem aos primeiros segundos do filme.

http://www.youtube.com/watch?v=Fpilf08-i70

6 comentários:

Anna Julia disse...

Primo, saudades de você...
adorei a idéia do blog. Vou acompanhar suas aventuras por aqui. Posta algumas fotos também. Como é a embaixada / consulado que vc trabalha?
Beijos enormes,
Aproveita! Estamos aqui. Longe mas perto...
Julinha
(annajuliaw@gmail.com)

maricouceiro disse...

Flavio!!
Recebi o link do blog da sua mae e vim conferir. Adorei ler seu texto. Lembrei do meu tempo na India e me identifiquei com seus comentarios! O cheiro que vc ja sente no aeroporto :-), o rickshaw que queria cobrar mais pq sabia que eu nao era dali, o pessoal do hotel todo dia de manha falando: Good morning, how are you today madam? Have a good day madam....
That's the Incredible India!!

Me diga, qdo vem aqui na China? Temos q nos encontrar. Estou em Dalian, 1 hora de Pequim (aviao). Vamos combinar!!
Um beijo grande e se cuida primo!
Mari

Cesar disse...

hahahahahah

Estás se sentido atração de zoológico é, grande irmão?! Só imagino a estranha sensação, hehehe

Estou sem entrar em contato, mas por dentro de tudo. Acho que vc afinal encontrou o cargo da sua vida, uma mistura de culturas Índia-Brasil.

Depois falo mais por email. E excelente a ideia do blog. Continue escrevendo, pq público há em profusão...

abração
Cesar

Tatiana disse...

Olá Flávio... Eu e Dudu iremos acompanhá-lo... aliás já coloquei o link de seu blog no meu... Viajo no que escreve, muito bom! Mas fale alguma coisa positiva, sabemos que tem! Beijao
Tati

Alguma aldeota disse...

Vergonha?

Deixa disso rapá! Joga o terno azul pro céu e mergulha a cabeça no acaju! rs

Itna nahin hai!

Beijobeijo
Isis

ps: Gostando de ver o sucesso do blog!

Cesar disse...

Flavio, fratello mio, vc é melhor cameraman que isso, hehehe

Algumas perguntas:
- O cara do hotel, além de te dar bom dia diariamente, tb tem que bater continência, é?!
- Se vc foi pegar o riquixá no Khan Market, pq ignorou os que estavam parados na esquina?

Polícia secreta, tá pensando o que, hehehe...

abração