sexta-feira, 2 de maio de 2008

215 Jor Bagh


- “Olha, eu quero um apartamento mobiliado, que não seja muito grande (espaço demais me deprime, sabe) e no qual estejam incluídos todos os serviços: internet, telefone, TV a cabo etc.”

- “Ok, sir.”

Lançamo-nos, eu e o agente, em direção às ruas da cidade. 1 mês procurando. Jor Bagh, 5 apartamentos. Nizamuddin East, 1 apartamento. Chanakyapuri, o “bairro diplomático”, 2 apartamentos. Sunder Nagar, 3 apartamentos. Golf Links, 1 apartamento. West End, 1
apartamento. Defense Colony, 1 apartamento. Vasant Vihar, 3 apartamentos. Chega.

Preços inacreditáveis: quarto e sala, 4 mil dólares; dois quartos, 5 mil dólares; 3 quartos, 6.500 dólares. Algo terá se apossado dessa gente para cobrar tanto por apartamentos velhos, repletos de vícios redibitórios, com banheiros caindo aos pedaços e, com poucas exceções, situados em áreas sem nenhum mimo. É como se o valor do aluguel fosse uma entidade autônoma, que não tivesse nada a ver com a realidade.

Não gostei de nada do que vi.

Cansado, desesperado e sem saber o que fazer, resolvi alugar o menos pior: 215 Jor Bagh. Quarto e sala com varanda; muitos vasos de planta nessa varanda. Os donos eram um casal de velhinhos sem filhos e, conseqüentemente, sem netos para paparicar. Apesar de sentir que provavelmente me tornaria o objeto dos sentimentos paternais reprimidos dos dois, segui em frente. Assinei uma carta de compromisso. Eles a puseram em seu puja* e pediram bênçãos por mim.

No dia seguinte, não queria mais. Caralho, e agora? Como dizer-lhes isso? Senti-me um canalha; daqueles que jura amor eterno à namorada para dar-lhe um pé na bunda logo depois. O pior é que achei que finalmente tinha encontrado o que queria: um quarto de hotel sofisticado num shopping. Pronto: troquei a velha de guerra por uma gostosa (que vai me custar muito mais caro, claro). Cafajeste total.

Ao telefone, o velhinho disse que tudo bem. Disse ainda que tinha gostado muito de mim e que não queria que nossa amizade terminasse por conta daquilo. Convidou-me para um chá em sua casa e desejou-me todo seu amor.

Queria morrer. O que fiz, Senhor? Sou um monstro desalmado! Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

Horas depois, mais aliviado, dei-me conta: nunca havia tido tanta intimidade com um contato de aluguel. Sentia-me como uma espécie de filho encomendado por Deus ao casal. Ainda bem que acabou. Não estava pronto para ter um relacionamento tão intenso com folhas de papel. E chega de drama: o velho mostrou seu lado ganancioso pedindo-me um mês de aluguel como compensação. Não sou o único monstro, after all.

*puja = altar hindú

PS: Para quem tem Google Earth, eis os links para a Embaixada do Brasil, 215 Jor Bagh e o Select City Walk, em Saket, onde provavelmente deverei morar.


3 comentários:

Tatiana disse...

Conseguiu ver a foto? deu certo??? Adorei esse texto, poderia ter tirado foto com velhinhos...rs beijosss

Cesar disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cesar disse...

E no final das contas eu não sou o único a sofrer com instintos maternos exacerbados, hehehehe