sexta-feira, 16 de maio de 2008

Fuscão preto

“Eu preciso de um carro com ar-condicionado. Eu preciso de um carro com ar-condicionado. Eu preciso de um carro com ar-condicionado.” Esse tem sido o meu mantra desde que o verão começou em Délhi.

Tal como Dorothy e o seu “I wanna go home”, tentei bater três vezes os saltos dos meus sapatos para ver se aparecia um furacão para realizar o meu desejo. Mas nada aconteceu. Pelo visto, eu mesmo teria de fazer acontecer. Que preguiça (esse calor dá uma preguiça...).

Todos os dias é a mesma coisa. A porta do hotel se abre como a boca de um dragão. Lá fora, um táxi sem ar-condicionado me espera. Andar num desses carros com a janela aberta e o vento na cara é uma experiência parecida com enfiar a cabeça num forno. Lá vou eu de novo cozinhar em fogo brando até a Embaixada. Estou vendo a hora em que o taxista, em vez de querer saber aonde vou, simplesmente perguntará: “mal-passado, ao ponto ou bem passado?” Ainda bem que a Embaixada fica só a 5 minutos do hotel...

A razão por que essa situação se prolonga há tanto tempo é que eu só consigo decidir alguma coisa depois de estudar todas as opções. Comprar um carro novo ou usado? Alugar um carro por um mês ou dois anos? Que carro comprar ou alugar? Quando as dúvidas são muitas, sigo sempre o método de D. João VI e não decido nada. Gosto de seguir as tradições, sabe.

Mas há limite para tudo. Depois de muita contemplação, resolvo comprar um carro e, enquanto ele não chega, alugar um outro qualquer. Decisão salomônica. Eu disse que gostava de seguir as tradições.

O pessoal da Embaixada sabe de um mecânico que aluga carros. Um certo Mr. William, que de inglês só tem mesmo o nome. Peço que liguem para ele. O carro, um Corsa sedan com ar-condicionado, deverá finalmente estar à minha disposição a partir de segunda-feira. Graças a Deus...

Passo o fim de semana sem me importar com o calor. Quase como se estivesse aproveitando os últimos dias em que Agni*, o deus do fogo, me chamuscaria com suas labaredas. Ele ia ver só com o meu novo carro com ar-condicionado... Ah, ia! Quem ri por último ri melhor.

Segunda-feira chego cedo na Embaixada. Cadê o meu Corsa sedan? Não sei, mas sei que lá não estava. Só consigo ligar para o Mr. William à tarde. Ele esclarece que não mandou o carro, pois não conseguiu encontrar um
motorista. Podia pelo menos ter ligado para avisar, né? Mas os indianos não têm esse hábito. Esforço-me para encontrar um motorista; e consigo um. Mr. William, por favor, entregue o carro aqui amanhã, às 14h. Obrigado.

Na tarde do dia seguinte, meu novo motorista, Mr. Francis, um senhor de cabelos brancos e (poucos) dentes pretos, estava lá. Mas e o carro? Neca de pitibiriba. Esse Mr. William deve estar de brincadeira comigo. Ligo para ele furioso. Falo o inglês mais quebrado possível, para tentar estabelecer algum tipo de comunicação.

- “Mr. William! Here from Brazil Embassy. Where’s car? Car?”
- “Hello, sir? Hello? Car? No car, sir. Accident! Accident!”.

Ocupado na oficina, o sujeito mandou a mulher trazer o carro até a Embaixada. Não precisou dizer mais nada...

Ria, Agni, ria.

Táxis, aqui vou eu de novo.


*Curiosidade: o nome "Agni" e o a palavra latina "ignis" (=fogo) têm, comprovadamente, semelhanças etimológicas. Prova de que o sânscrito e o latim são, de fato, línguas irmãs.


6 comentários:

Cesar disse...

É, rapaz... Assim teu carro vai chegar antes que vc consiga alugar um!

Mulher no volante, perigo constante, no Brasil ou na Índia, hehe

Abraços

Malu disse...

Machismo não vale, Flavito, nem na India.... (hehehe)
Que tudo se resolva bem!
Bjs e saudades

Mauro disse...

Seguir o exemplo de D.João VI não é má idéia. A vida ensina que diversos problemas se resolvem por si só, sem a gente precisar decidir.Examinar as opções, é de fato, muito importante.Parabéns pela decisão.
Bjs

joseph disse...

Flávio.

Muito bom, mas muito bom mesmo o seu blog.
Ri muito quando o li.
Esta chiquerrímo e soft.
Abraços
Joseph

Catarina disse...

Nãoooo, Flávioooo!!! Que 'cangueira' foi essa que não conseguiu chegar ao destino final? Agora, vai assar, cozinhar, fritar, escaldar; seja lá o q for, nos táxis da Índiaaaa!!! heheehe Brincadeiraa! Tô adorando o blog! Bjão da Paraíba!

Jorge Ramiro disse...

Tenho um Chevrolet Classic é um carro muito velho e eu restaurei tudo e na parte de trás do carro instalou bebedouro para cachorro, para o meu cachorro, para beber água quando paramos.