sábado, 10 de maio de 2008

The life and Times of India


O dia começa com o jornal na porta, infalivelmente dobrando dentro de uma sacola de palha, pendurada na maçaneta. The Times of India. Meu companheiro de café-da-manhã.

Nossa conversa divide-se em quatro partes.

Primeiro ele me fala da cidade. “Garota de 7 anos estuprada por policial enquanto esperava o ônibus da escola”. “Mulher de 21 anos suicida-se por conta de disputa sobre dote”. “Mulher é currada por cunhado e seus amigos .” “A prática abominável do infanticídio de mulheres”.

Arregalo os olhos. Como assim, meu Deus? A primeira reação é a de descrença... Leio de novo. Nunca poderia imaginar que esse fosse o fruto do gigantesco tabu sexual da Índia. Chego à conclusão de que o assunto aqui é tão proibitivo, que certos homens só conseguem imaginar-se conquistando-o à força. E a mulher? Não interessa. Esteja na idade que estiver. Triste.

Que loucura tudo
isso . Esse então é espírito de Délhi, onde as pessoas não se importam muito com o próximo? Penso no trânsito, onde os motoristas parecem trafegar sozinhos (só o acidente revela a existência do outro!). Penso nos motoristas de táxi, sempre tentando te passar a perna. Pausa. Silêncio contemplativo. Sim, a existência do indivíduo aqui é algo a ser conquistado diariamente, com força bruta ou voz alta. Que mundo cão...

Atordoado, peço a meu companheiro de papel que me fale em seguida das fofocas (preciso de algo mais leve para desfazer as emoções das primeiras notícias). “Mallika Sherawat processada em Chennai por ir a evento de minissaia”. “Será que o namoro de Karina Kapur com Saif Ali Khan vai vingar?” “Akshay Kumar e Prity Zeinta juntos em jogo de críquete”. De vez em quando, ele também me fala das fofocas sobre o casamento da Giselle Bündchen.

Quanta futilidade, meu Deus; quanta agitação. Parece que nada daquilo que discutimos de início importa. É outro mundo. Passamos à Índia que se quer ocidental; à Índia de Bollywood. Revela-se a outra parte do espírito de Délhi: a futilidade e o escárnio da elite. Para a burguesia local, tudo que lhe é exógeno parece e fede a cães sujos.

A confusão mental gerada por esse par de opostos faz-me perder a paciência para conversas mais prolongadas. Vamos, meu caro. Resuma logo para mim as notícias sobre política (sei que você nunca tem muito o que sobre isso mesmo), sobre o trânsito (sempre caótico) e sobre a eterna discussão se cheerleaders com trajes exíguos (para os padrões locais, claro) deveriam animar ou não os jogos de críquete. Rápido que já estou sem saco e com dor de cabeça. Uff!

Tomo um último gole de café ralo. Respiro. Ainda há um resto de energia para ver os esportes. Parla! Mas ele me vem com aquela lenga-lenga de sempre: críquete, críquete e mais críquete. Uma notinha sobre futebol aqui; outra sobre Fórmula 1 ali. A presença eterna da matéria sobre um tapa que o jogador de críquete deu no outro. Todos os dias é a mesma coisa. Valha-me Deus...

Desiludido, procuro algo que me faça sentir melhor. Será assim a Índia: um conglomerado de estupros, pudores, fofocas, alguma política e críquete? Em grande parte sim, talvez. Mas deve haver algo mais, não é possível!

Analiso o jornal com cuidado. Perdida entre os editoriais, sem chamar nenhuma atenção, esconde-se a coluna sobre espiritualidade. “O poder do alfabeto de expandir-nos ou limitar-nos”, escreve o grande Swami Muktananda. “A meditação não precisa nem de foco nem de concentração”, argumenta o controverso J. Krishnamurti. Aqui opinam também Vivekananda, Yogananda etc.

Que tremendo paradoxo! Em meio às formas mais cruas das brutalidades e inutilidades do mundo, encontra-se a mais refinada filosofia espiritual. Como um raio de sol que rompe as nuvens negras da chuva, as palavras dos sábios indianos remetem-nos de volta ao transcendental.

De repente, dou-me conta de algo incrível: a espiritualidade pela qual a Índia é conhecida subsiste aqui de forma tão forte, precisamente porque a realidade é tão crua, quase bárbara. Ela esconde-se em meio a tudo isso, devendo ser buscada com zêlo, como a coluna no jornal. É essa espiritualidade que torna sustentável os paradoxos e incongruências da Índia.

Volto aliviado para o quarto. Sinto-me como se tivesse decifrado o enigma... Venha, Índia, venha. Vá em frente e teste minha paciência, meus pudores. Force meus limites. Desconstrua-me e faça-me de novo. Já entendi que essa é a sua maneira de ensinar.

7 comentários:

Alguma aldeota disse...

Teu blog está muito bom! É interessante notar como se dá o funcionamento de uma sociedade, na qual se vive sem efetivamente ser parte dela. A percepção, o olhar do "observador" cria um movimento onde as incongruências, as cruezas, e até mesmo as sutilezas, formam um imenso tear de paradoxos que nos colocam em limite, como você mesmo aponta.

Aproveite essa desconstrução.

Malu disse...

Querido Flavito

Parece-me que vc está conhecendo, agora, uma nova India, além dos muros do Asrham. Interessante o modo como vc consegue perceber isso!
Além do prazer de ler textos tão bem escritos, estamos aprendendo muito com eles.
Bjs e saudades mil.

Ana disse...

Gosto muito desse texto. É realmente assustador ler um jornal como esse. Mas no Brasil também temos as nossas dificuldades. Voltarei a ler o seu blog.

Abraço,

Ana Cecília.

Cesar disse...

Bom texto!

A espiritualidade existe porque a realidade é crua, ou a realidade é crua porque existe a espiritualidade?

Tostines vende mais porque é fresquinho, ou é fresquinho porque vende mais?

rs...
abs

Catarina disse...

Flávio, achei teu blog! Paletó de linho, nome legal! A Índia agora se mostra mais próxima e lindamente descrita por tuas sábias palavras. Tô adorando! Continua postando sempre! Um bjão bem daqui de longe...

Catarina

WFP disse...

"Venha, Índia, venha. Vá em frente e teste minha paciência, meus pudores. Force meus limites. Desconstrua-me e faça-me de novo. Já entendi que essa é a sua maneira de ensinar." É... parabéns, hermanito!

stefania disse...

Oi Flavio. Saudades de você querido, muito bom visitar seu blog e ler seu texto. Quero ouvir suas histórias ao vivo, quando você virá ao Brasil? Beijos, da amiga e fã, Stef