terça-feira, 17 de junho de 2008

Asfalto molhado

Asfalto molhado. Chove sem parar. As avenidas planejadas de Délhi assemelham-se cada vez mais a veias humanas. Só que o corre por elas não é sangue, mas água, vacas, ônibus, carros, motocicletas, ciclistas e pessoas. O trânsito já naturalmente lento afoga-se ainda mais (literalmente talvez). A chuva está para a rua assim como o colesterol está para a veia: entope.

Cruzamentos em nó. Carros amontoados, formando uma massa disforme de metal retorcido. Viadutos e ruas que se desencontram com o cair da chuva. Verdadeiros bandhas* de concreto armado. Desatá-los exige paciência, muita paciência. Virtude que, nesses dias, é medida não em minutos, mas em horas. Horas que, à medida que passam, emprestam à alma a cor cinza do asfalto e do cair da tarde. Dá sono, mas um sono que não se consegue dormir.

As monções chegaram, e chegaram cedo. Nesses dias, as pessoas ficam mais rápidas que os carros. Movem-se esguiamente, enquanto o trânsito bufa com os freios dos ônibus e grita com a buzina desperdiçada dos automóveis. Tudo em vão. Tudo parado. Até as vacas preferem descansar e jantar os pequenos canteiros das avenidas.

São anos e anos, séculos, milênios de monções, e as cidades indianas ainda não estão preparadas para recebê-las. Ou talvez os engarrafamentos sejam procissões modernas para festejar o início da temporada das chuvas. Procissões que demorarão três meses para terminar, quando então finalmente virá o último temporal, o grande purnahuti*. Sim, esta é a melhor maneira de entender as monções: um grande yajña* cuja oferenda é água e que a única coisa a se fazer é esperar o deus da chuva terminar de recitar seus hinos e brandir seus muitos vajras*.





* Bandha é um termo em sânscrito que denota algo preso, fechado; um nó interno ou externo.

* A palavra purnahuti descreve o término de qualquer celebração, especialmente o término de um yajña (= cerimônia do fogo, típica do ritual religioso hindú) ou de um saptah (= canto com 7 dias de duração).

* Vajra é a palavra em sânscrito para trovão ou diamante. É também o nome da arma de Indra, o deus dos deuses, segundo a mitologia hindú.

7 comentários:

Mauro disse...

Flavito, de todo modo, como vc mesmo me alertou, fica o consolo de que as monções em Delhi são menos mofadas dos que as de Mombay, não? Confesso que ainda tento entender o que vc acha de tão admirável neste longinquo País. Bjs

Tatiana disse...

Flavito (como diz tio Mauro), confesso uma coisa tb - fico arrepiada com suas palavras... assim sentindo todo o lugar... por vezes me pego a gargalhadas "solita" e por vezes me pego a pensar, assim com uma forte emoção que vc passa... vamos ver se conseguiremos ir ai em Dezembro... beijos e até mais

Patricia disse...

Oi Flavio!
Bom, pior do que enfrentar este transito de carro, eh enfrenta-lo de oto... ja tomei uns dois banhos com a agua que os carros jogam ao passarem pelas ruas alagadas. E o pior de tudo eh que ainda continuo andando de oto... :P
Sera que ninguem nunca deu a ideia de construirem sistemas de escoamento de agua, bueiros?
Beijos

Cesar disse...

Ué, bueiro é novidade na Índia, é?!
Nossa, se for o negócio deve realmente ser MUUUUITO sério...

Fico imaginando como é a vida dos rickshaws (é assim q se escreve?) no meio dessa água...

Enfim, boa sorte, bons espirros com a tua alergia e, se o bicho pegar msm, alugar um barquinho é sempre uma opção, rs...

Abs

maricouceiro disse...

Flavio!!
Depois de longa e tenebrosa temporada temporada na China, volto ao velho mundo e posso comentar de novo seu blog :-)! Nada de textos via skype sem fotos :-(.
Nao canso de repetir que vc escreve super bem e adoro ler seus posts. Me remetem ao meu passado na India. Aguardo novo post!
Beijo grande.

Malu disse...

Flavito querido!

Apesar de todos os contratempos da India - muito calor, muita chuva, muito frio, trânsito caótico, "Delhi belly', tabus enormes, taxista muito espertos, - ela consegue te emocionar e fazer vc escrever textos tão lindos que nos levam a querer conhecer essa India tão misteriosa e indomada.

Bj gde e muitas saudades.

Tatiana disse...

Quer ver algumas fotos da nossa seleção pereba? hahha brincadeira... eu fui no jogo do Brasil X carioca, entra lá no blog pra ver... e q talvez se esse era seu maior motivo pra voltar ao Brasil ( admirar seus jogadores), pode ficar ai mesmo no calor com terno e gravata...rs