sábado, 7 de junho de 2008

De noite, eu rondo a cidade...

Dirigir na Índia sempre me pareceu coisa de louco: carros andando na contramão; cruzamentos em que vale tudo; o volante no lado do passageiro; ruas de mão única na teoria, mas de mão dupla na prática... Enfim, um trânsito aparentemente sem regras, no qual os motoristas dirigem como se não houvesse outros carros na rua. Meu plano era vir para cá, comprar um carro e contratar um motorista, pois dirigir aqui monsieur, jamais.
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No entanto, apesar de não querer conduzir, queria conhecer os caminhos da cidade: saber como se chamam as ruas, onde vão dar, como chegar em tal e tal lugar. É importante saber isso para que os motoristas de táxi não te passem a perna. Comecei tentando observar meu motorista, que caminhos tomava etc.; mas isso não funcionou. O negócio era dar uma dirigidinha mesmo. Assim só de leve, sabe. Achei que não fosse fazer mal.

Comecei indo ao trabalho, que fica a 5 minutos do hotel. Fácil. Depois, fui até o Saket, que fica a 20-30 minutos do hotel, com meu motorista ao lado. Mais difícil. Mas não estava funcionando: não aprendia os caminhos, e meu motorista ficava estressado comigo (eu sou, digamos assim, um motorista audacioso, especializado em tirar finos de outros carros).

Resolvi que era hora de lançar-me em vôo solo por Délhi. Domigão de sol, almoço na casa de amigos, peguei o possante e atirei-me às ruas. Mapão do meu lado, caminho decorado, chalo*! A aventura foi um sucesso absoluto! Cheguei numa boa e voltei numa boa maior ainda.

Fiquei muito confiante depois disso. A semana passou, e eu não via a hora de regressar ao volante. Sem conseguir esperar mais, agarrei a primeira oportunidade de dirigir: sexta à noite, barzinho no Connaught Place (o centro da cidade) com a comunidade brasileira. Cinco minutinhos do hotel. Já é!

Dirigi numa boa. Estacionei numa boa. A volta era um desafio para mais tarde. Conversamos, bebemos, comemos. Ainda me sentia confiante. Na hora de voltar, resolvi oferecer carona a uma menina que estava a pé. Ela me disse que morava em Anand Lok, bairro perto do meu hotel, cujo caminho eu já sabia de cor. Fomos. Eu de motorista, ela de co-pilota. Uma combinação desastrosa.

Desastrosa de fato. Na metade do caminho, descobri que ela não morava em Anand Lok, mas em Anand Niketan, do outro lado da cidade. O desespero começou lentamente a tomar conta de mim. Sem saber o que fazer, peguei a primeira a direita, e obviamente, em meio ao breu deserto das ruas sem placas de Nova Délhi, perdemo-nos.

A menina começou a ficar nervosa; girava o mapa para tudo quanto é direção, talvez esperando encontrar uma bola vermelha que dissesse “você está aqui”. Esforço inútil. Conclusão: além de ter de me encontrar em meio a um cruzamento de vários viadutos, ainda tinha de consolar minha passageira, que estava à beira de um colapso nervoso. Tudo isso às duas da manhã.

Não sei se por sorte ou graça divina, viramos aleatoriamente à esquerda e deparamo-nos com uma enorme placa que dizia: “Chanakya Puri” (o bairro diplomático). Quase chorei de emoção. Chegando lá, sabia que era só descer o Shanti Path até Anand Niketan. Ah, Shanti Path, o caminho da paz! Caminho que nos levaria à morada da felicidade, Anand Niketan.

Trafegando numa via tão auspiciosa, chegamos em poucos minutos. Algumas curvas mais, e ela disse: “pode parar, eu moro ali”. Ufa, que alívio! Não sei se fiquei feliz por ter chegado ou por ter entregado a encomenda. Voltei mais leve para o hotel. Em silêncio, jurei para mim mesmo que, da próxima vez que levar alguém em casa, vou pedir o endereço por escrito.

***
*Chalo (pronuncia-se "tchalô") significa, em português, "vamos lá; vam'bora".

7 comentários:

Alguma aldeota disse...

HA HA HA HA HA HA!

Viu só no que dá!
Agora o senhor não tem mais moral nenhuma pra tirar sarro de mim aproveitando-se de meu sobrenome!

Acho até que vou doá-lo para ti:
"Honra ao mérito"! hehehehe

Te cuida aí!
Beijos

Isis

Cesar disse...

huahauhuahauhauhauhauhauhauhauha
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Ô Flavio, até o motorista indiano ficou estressado contigo no volante???? O negócio tá sério, hein rapá?! Volta pra auto-escola! hahhahahahahahahaa

Agora falando sério: que bom que deu pra dirigir por aí, né?! Mais autonomia, mais independência! Praticamente uma Marcha do Sal!

Dependendo do teu sucesso, até o momento muito bom, vc pensa em dispensar o motorista?

abração

Catarina disse...

'Shanti Path' - > o caminho da felicidade! hehehe Beijos!

Mauro disse...

Flavito, vc acha que o trânsito por aí é uma loucura e eles acham que vc é que é um louco ao volante. Veja que doidera total.

Informe que vc é o protagonista do filme Velozes e furiosos.

Não tem Tomtom por aí?

Informo que acabou a nossa paz por aqui sabendo que vc dirige por aí.

Beijos

MN

Malu disse...

AI, Flavito!!!
Por que não usa o motorista? É tão prático!!
Nós sabemos bem o qto vc é "audacioso".

Já estou ficando nervosa!!
Deus te proteja sempre!

Bj gde e muita saudade.

PS. Comprar uma "tomtom" seria ótimo, não?

Patricia disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
ok, ok, da proxima vez eu levo o endereco por escrito, um mapa cheios de bolinhas vermelhas indicando todo os bairros que voce ira passar durante todo o trajeto e ainda seu motorista de co-piloto, porque ahi nao tem jeito de se perder!
Pelo menos a carona valeu uma boa estoria para contar!
Beijos

Tia Thê disse...

Meu querido

Após algumas tentativas frustradas acho que agora vou conseguir te dizer que acho uma delícia ler seu blog!Você está me saindo um belo de um escritor, um cronista de primeira!!!
As dificuldades da Índia, esse tempo para pensar têm de dado muita inspiração!!
Continue assim que estamos adorando, nos divertindo muito!
Te amo muito!!
Beijos e saudades da
Tia Theresa