quarta-feira, 25 de junho de 2008

Em cartaz: "A Máfia dos Carpinteiros".

A lei do karma, na Índia, é talvez a única que não se consiga burlar com um suborno, uma carteirada, uma levantada de voz ou com a clássica “saída de fininho”. Toda ação tem uma reação; quer você queira, quer não. E as ações passadas, como se não entendessem que deveriam permanecer passadas, insistem em voltar ao presente e renascem das cinzas a que a memória as condenou.

No cenário em que se desenrola o drama teatral* da minha vida, um certo sofá e uma certa prateleira têm desempenhado esse papel de fênix, ressurgindo karmicamente. Em minha imaginação, já os queimei, já os neguei, já os exorcizei, já deles desisti. No entanto, insistem em voltar, em ressurgir das cinzas, em tomar forma (a cara forma de 800 dólares).

O primeiro ato dessa peça kármica dá-se em Jor Bagh, bairro nobre da capital indiana, onde um menino inocente, recém-chegado à cidade grande e deslumbrado por ela, trava contato com cidadãos que julga de boa índole – mas que se mostram gananciosos por fim – e cai no conto do vigário. Desiludido e sem lugar para morar, o menino ronda cabisbaixo as ruas da cidade, amarrado por uma dívida leonina. O ato termina com o menino tendo pesadelos com um sofá-cama e uma prateleira fantasmas, que, segundo o carpinteiro, já estariam 80% prontas, apesar de o pedido ter sido feito há apenas 3 dias.

No segundo ato, o menino se vê acuado pela máfia dos carpinteiros de Nova Délhi, que cobra rios de dinheiro em troca de mobília de baixa qualidade. O clímax dessa cena é a negociação do preço entre o menino e o carpinteiro pilantra, que termina tensa, com o mencionado profissional liberal recusando-se a baixar o valor cobrado. Injuriado, o menino grita, esperneia, bate na mesa. Mas seu esfoço é em vão.

No terceiro e último ato da peça, o menino, já conformado em pagar o preço extorsivo, começa a procurar meios de, pelo menos, livrar-se do benditos sofá-cama e prateleira. Procura compradores, oferece-se para pagar parte do preço etc. Numa última tentativa, o menino resolve ir ao longíquo covil do Poderoso Chefão da máfia dos carpinteiros, ver os tais sofá-cama e prateleira. Ao chegar lá (após meia-hora de estrada), depara-se com móveis dignos das Casas Bahia, sem o benefício de pagá-los em 12 vezes sem juros. Assustado e, ao mesmo tempo, aliviado, o menino dá-se conta de que foi salvo pelo gongo: como aquela porcaria não corresponde, nem de longe, ao preço que está sendo cobrado, ele não se sentirá mal em desistir da compra e deixar o “prejuízo” recair sobre o carpinteiro-pilantra.

A peça, quem diria!, terá final feliz. A última cena talvez seja o menino entrando numa espécie de Tok&Stok local e comprando móveis de igualmente baixa qualidade, mas por um precinho bem mais camarada.


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* "drama teatral" = metáfora emprestada da vertente shivaíta da filosofia espiritual hindú da Caxemira, que entende a vida como uma "play of consciousness" , uma peça teatral orquestrada pela consciência. A vida como ela é seria, dessa forma, uma ilusão criada pelo nosso próprio ego, uma verdadeira peça de teatro em que nós desempenhamos o papel principal. O objetivo da existência seria desvendar essa ilusão, alcançando, dessa forma, a iluminação.

5 comentários:

Alguma aldeota disse...

"longíquo covil do poderoso chefão"

"movéis casas Bahia"

Isso foi muito engraçado, coração!

Vê se não te mete mais nessas roubadas! Poor boy!

Malu disse...

Flavito querido

É assim que "o menino inocente, recém-chegado à cidade grande e deslumbrado por ela" aprende, cresce e vai perdendo o jeito de "mamãe socorro".

Mas, está tudo bem! Isso faz parte.
Mil bjks

Cesar disse...

UFA!!!! Final feliz quando tudo parecia perdido! Que bom!!! Que assim seja, que assim permaneça! Um Karma a menos...

Abs

Tatiana disse...

..`.É, demorei para escrever alguma coisa aqui, mesmo sendo alguma coisa mesmo... sinceramente não entendi a questão custo - benefício disso ai. Foi tão caro mesmo? Quanto $$$? Pena que esse dinheiro não os levaria, talvez, para algum lugar mais digno... Agora vc dizendo que´: "móveis das Casas Bahia são em 24 x SEM juros"... O único erro em post, talvez, foi esse... rs beijao e boas compras!

Tia Thê disse...

Meu querido

Sabe que me dói um pouco ouvir vc falar em "drama teatral da minha vida"?

Meu Deus, será que o pessoal mais antigo da Embaixada não pode de dar umas dicas??!!

Meu Deus, onde está a está o espiritualismo do povo indiano?

Mas, como tudo na vida tem um lado bom, tais experiências te dão essa inspiração que vem nos proporcionando esses momentos de prazer que é ler o que vc nos conta...

Beijos, meu lindo.

Tia Thê