quarta-feira, 23 de julho de 2008

Soturno em dó menor opus postumo

Já era hora do almoço, e eu estava assim, meio cansado, olhando para o infinito, para o nada, como se o nada pudesse ser visto. Pensava longe, a visão a descansar no verde da relva do jardim da Centro de Cultura Italiano de Délhi, “o maior da Ásia” ouvi dizer. Mesa no lado de fora; lá dentro, no ar condicionado, não havia lugar. Sentia-me numa estufa, como se fosse vaso em que planta logo brotaria. O suor se encarregava de me regar.

A comida já havia pedido. Esfregava os olhos, óculos sobre a mesa. Mãos na cara, e suspiro. Cansaço. Era segunda, e domingo foi um dia cheio. Cheio de problemas. Curioso domingo ser cheio de problemas. Dia de Faustão (ou de Chacrinha, para os saudosos); de Fantástico; de casa da vovó; de pôr do sol que faz lembrar escola na segunda-feira.

Mas aqui na Índia o domingo não é dia de nada disso. Talvez seja dia de ruas mais vazias e olhe lá. Domingo em hindi é ravivar: dia do sol. Domingo de sol. E que sol.

Fim de semana passado fiz compras. Estante; cadeira; ipod. Ainda saí pra jantar no fim do dia. Meu lado capricorniano não permite que eu continue a me sentir bem depois de tanta gastação. Mea maxima culpa.

Domingo vou abrir o presente que me dei. Arranco bestialmente o plástico que envolve o pacote. Brilhe, minha pequena pérola negra de alta tecnologia. My precious. Ligo o computador, instalo o programa: itunes. Olho, olho. Não consigo passar o que já tinha no aparelho para o computador. Frustração. Desligo o computador. Hora do almoço. Volto. Religo. Religo. Religo. Nada. Meu computador ficou com ciúme do meu novo amor tecnológico e entrou em conflito com o software. Deixou-me só, num domingo, na Índia.


Acordo segunda embaralhado, sem saber o que fazer. Chego no trabalho. Ligo para o 1800. Fico uma hora com o atendente no telefone. Tentamos de tudo. Até ressucitar o paciente com configuração anterior. Mas não adiantou. Às 13h do dia 13, meu computador é declarado morto. Posso ressucitá-lo, mas sua essência (leia-se, meus arquivos) está perdida. Perdida mesmo, pois até o pen drive de backup sumiu.

Segunda-feira, dia 14. Eu me vejo olhando as árvores do jardim. No ar condicionado, não havia lugar. Chega de tecnologia para mim hoje.

POST DEDICADO À MEMÓRIA DE:



"MITSUBICHO"

Jun. 2006 - Jul. 2008




sábado, 19 de julho de 2008

Ônibus 174

Cimento, terra e água, barro, cascalho. Materiais que compõem as ruas de Délhi. Muito tapume do metrô também. E carros, muitos carros. E bicicletas, e riquixás, e rebanhos de vaca, e motocicletas levando famílias inteiras. Mas os reis de aço incontestáveis dessas ruas são os ônibus. Grandes e barulhentos, com lataria cheia de cicatrizes que denotam as incontáveis batidas e atropelamentos em que já se envolveram, os ônibus são o terror das ruas. “Vrrrum! Vrrrum! Saiam da frente! Saiam da frente!”

Aqui não é como o Rio de Janeiro, onde os ônibus tentaram reinar, mas não conseguiram devido à audácia do motorista carioca, cuja maior diversão parece ser fechá-los sempre que possível. É quase como se o som do freio a ar fosse bálsamo para os ouvidos estafados de quem está atrás do volante.

Os ônibus aqui representam, portanto, a violência urbana, que, de outra forma, praticamente não existe. São eles que matam, batem (parece que os ônibus atropelam e matam cerca de 100 pessoas por mês em Délhi). Os ônibus representam também a poluição intensa que o caótico trânsito de Délhi emite diariamente. Enfim, ônibus aqui é tudo de ruim.

Mas, por contas das ditas “cicatrizes” em sua imagem, o governo da cidade está tentando substituir as famigeradas lotações que operam a chamada “linha azul”. A assassina linha azul. E é por conta disso que, hoje, se vê ônibus da Marcopolo rodando por aqui. Mas, como não se pode substituir toda a frota em um estalar de dedos, os governo decidiu também substituir o diesel pelo gás natural.

É aí que vem a maior das ironias. Outro dia, voltando para casa, descendo a “Outer Ring Road”, passa-me ao lado um ônibus desses velhos que dizia “the greenest bus line in the world, operated on CNG”. Greenest? Rapaz, só se for por conta da grama que cresce nas covas dos muitos que esses ônibus já mataram.

Quem diria. Sem saber, a assassina linha azul já havia começado, anos atrás, a realizar processo de “troca de créditos de carbono”: a cada um que mata, mais verde e, portanto, mais fotossíntese! A assassina linha azul? Que nada! A pioneira linha azul!

PS: Hoje, no trânsito, pensando sobre a tal estratégia "pioneira" da linha azul, cheguei à conclusão de que, de pioneira, ela não tem é nada. É que aqui não enterram, mas cremam, os mortos! Portanto, a cada morte, mais fumaça no ar. Na verdade, a linha azul, além de poluir ao funcionar, polui ao matar também! É assassina mesmo!


quarta-feira, 9 de julho de 2008

Lago de néctar

Vento e poeira. Ruas de terra em estado de barro. Ruelas, na verdade. Gente por todos os lados, dividindo espaço com carros, bicicletas, riquixás. Tudo caindo aos pedaços. Parte antiga, medieval (e até hoje medieval) da cidade de Amritsar. Nome curioso: Amrit = néctar; sar(ovar) = lago. Lago de néctar. Onde estará? Na poça, talvez.

É inacreditável que, aqui, possa exisitir algo que mereça ser visitado. Mas há. De súbito, as ruelas se abrem numa praça, o barro dá lugar ao mármore, o som irritante do trânsito é substituído por cantos devocionais. Chegamos ao Templo Dourado. O gurudwar* equivalente, no sikhismo, ao Vaticano, à Meca. Ele permanece de pé, majestosamente sobre um lago. O lago de néctar. Aí está: Amritsar.

Pano para cobrir a cabeça.
Sapatos do lado de fora. Lavar os pés antes de entrar. É preciso cumprir a ritualísitca. Lá dentro, mármore e música; água e gente tomando banho com os peixes. Tudo é deslumbrante. Vivo. Uma ponte conecta o Templo a seu entorno. Antes de cruzá-la, oferenda. Doce quente em bandeja de ferro. Queima a mão. Notinha com o quanto você gastou para comprar a oferenda na caixa de dízimos. Fila grande para entrar. Penitências simples a serem feitas antes de encontrar o sagrado.

À medida que nos aproximamos, a música aumenta. Empurra, empurra. INPS? Não, um templo. É difícil manter a serenidade e o respeito; mas esse é o desafio. A saleta que se apresenta após a porta é incrível: toda dourada. No centro, o livro. Adi Granth*: o 11o Guru Sikh. Ao lado, três sikhs, dois harmônios e um par de tablas: cantos poderosos ao som das tekas*. Alguma coisa acontece no meu coração.

Três andares, três livros. Ode ao Granth Sahib*. Aqui, nunca se o pára de ler. Apesar do calor impossível, úmido; do suor que lava a roupa. No úlitmo andar tem ar condicionado. Uma das bênçãos do Adi Granth para os que vêm visitá-lo no meio da estação das chuvas.

Entre o caos e a tranqülidade, o mundano e o divino convivem lado a lado em Amritsar. Contraste impressionante, mas que faz parte. Ali, no meio da sujeira e do esgoto, ergue-se uma das maravilhas da Índia e da humanidade. Maravilha que o mero olhar não é capaz de apreender sozinho. Sem sentimento e coração, o Templo Dourado é apenas pedra branca. Nada mais.


***
Gurudwar = o nome que se dá aos templos do sikhismo
Adi Granth ou Granth Sahib = livro sagrado do sikhismo, que é uma compilação dos ensinamentos dos 10 Gurus sikhs e de santos sufis e hindús. O último Guru sikh, Guru Arjun Dev, antes de falecer, "nomeou" o livro como o eterno guru dos Sikhs.
Tekas = nome dado às batidas das tablas.

terça-feira, 1 de julho de 2008

O importante é que emoções eu vivi.


Rodovia em direção ao sul. Um sul não tão distante: Agra. Finalmente, decidi espantar minhas preguiças e meus medos e ir conhecer esse monumento que já vi tantas vezes em fotos, mas nunca ao vivo: o Taj Mahal.

Cinco e meia da manhã estou de pé. O carro que aluguei – o meu velho de guerra não agüentaria a estrada – estará na porta do hotel às 6h. Cereal com leite, croissant com queijo. Toca o telefone: o motorista chegou. Um nepalês radicado em Délhi chamado “Tapa”. Tudo a ver. Tive mesmo vontade de ensinar-lhe, ao vivo e a cores, o significado de seu nome em português, principalmente quando decidia falar hindi comigo, como se eu entedesse, e quando resolvia ajudar um ambulante desses de sinal a vender-me alguma goiaba. Mas, segurei-me. Tapa por tapa, esse pelo menos, conhecia o caminho...

À medida que a rua se tornava rodovia, Délhi sumia e transformava-se em campo. Na Índia rural (assim como na urbana), o século XI convive com o século XXI. Lado a lado, ao longo da estrada, fábricas coexistem com plantações de cereais, povoadas, todas as manhãs, por pessoas de cócoras, cagando tranqüilamente no mato. Bem, é aquela história: “Deus ajuda quem cedo madruga”, mesmo que madruguem para cagar no mato...

São três horas e meia de estrada e imagens pitorescas e escatológicas. Pelo menos, a viagem foi em tempo recorde. Em geral, leva umas cinco horas para chegar a Agra, mas Tapa estava endiabrado ao voltante.

Logo, o desarrumado cenário típico de uma cidade indiana abre-se à minha frente: cheguei a Agra. A tumba de Akbar, o terceiro e mais importante imperador Mughal, é o primeiro monumento que acolhe o visitante na cidade. Um típico exemplo da arquitetura Mughal, com pedras vermelhas e abóbadas arabescas. A tumba em si, no entanto, é bastante simples, com singelas paredes e teto de concreto. Digna de um imperador tào reverenciado por sua sabedoria e austeridade.

O Taj vem depois, meio afastado da cidade. O carro só chega a 2kms de distância do monumento, obrigando o turista a passar por uma espécie de “corredor polonês” de vendedores insistentes, de guias que te seguem mesmo que você já tenho dito que não quer um guia, de motoristas de rickshaw que cobram uma baba só para te levar daqui até ali.

Arrastando uma procissão de ambulantes de todos os tipos, o turista finalmente chega no lotado guichê de ingressos. Rs. 40 para indianos; Rs. 750 para estrangeiros. Ainda bem que minha carteirinha de diplomata permite-me pagar o preço dos indianos.

Passos depois, deparo-me com a vista mais deslumbrante que já presenciei. Apesar das muitas fotos, o Taj ao vivo deixa qualquer um boquiaberto. Enorme, todo branco, ladeado por duas mesquitas que, sozinhas, seriam monumentos impressionantes em si, mas que, diante daquela jóia de mármore, perdem todo o esplendor. Fotos, fotos, fotos.

Volto tranqüilo para o carro. Tapa, vamos embora. Levo minhas fotos de lembrança... Bem, talvez não. Sem querer, apaguei todas as fotos da máquina... Deslumbramento e decepção num mesmo dia. Emoções que qualquer viagem pela Índia sempre te dará.