quarta-feira, 9 de julho de 2008

Lago de néctar

Vento e poeira. Ruas de terra em estado de barro. Ruelas, na verdade. Gente por todos os lados, dividindo espaço com carros, bicicletas, riquixás. Tudo caindo aos pedaços. Parte antiga, medieval (e até hoje medieval) da cidade de Amritsar. Nome curioso: Amrit = néctar; sar(ovar) = lago. Lago de néctar. Onde estará? Na poça, talvez.

É inacreditável que, aqui, possa exisitir algo que mereça ser visitado. Mas há. De súbito, as ruelas se abrem numa praça, o barro dá lugar ao mármore, o som irritante do trânsito é substituído por cantos devocionais. Chegamos ao Templo Dourado. O gurudwar* equivalente, no sikhismo, ao Vaticano, à Meca. Ele permanece de pé, majestosamente sobre um lago. O lago de néctar. Aí está: Amritsar.

Pano para cobrir a cabeça.
Sapatos do lado de fora. Lavar os pés antes de entrar. É preciso cumprir a ritualísitca. Lá dentro, mármore e música; água e gente tomando banho com os peixes. Tudo é deslumbrante. Vivo. Uma ponte conecta o Templo a seu entorno. Antes de cruzá-la, oferenda. Doce quente em bandeja de ferro. Queima a mão. Notinha com o quanto você gastou para comprar a oferenda na caixa de dízimos. Fila grande para entrar. Penitências simples a serem feitas antes de encontrar o sagrado.

À medida que nos aproximamos, a música aumenta. Empurra, empurra. INPS? Não, um templo. É difícil manter a serenidade e o respeito; mas esse é o desafio. A saleta que se apresenta após a porta é incrível: toda dourada. No centro, o livro. Adi Granth*: o 11o Guru Sikh. Ao lado, três sikhs, dois harmônios e um par de tablas: cantos poderosos ao som das tekas*. Alguma coisa acontece no meu coração.

Três andares, três livros. Ode ao Granth Sahib*. Aqui, nunca se o pára de ler. Apesar do calor impossível, úmido; do suor que lava a roupa. No úlitmo andar tem ar condicionado. Uma das bênçãos do Adi Granth para os que vêm visitá-lo no meio da estação das chuvas.

Entre o caos e a tranqülidade, o mundano e o divino convivem lado a lado em Amritsar. Contraste impressionante, mas que faz parte. Ali, no meio da sujeira e do esgoto, ergue-se uma das maravilhas da Índia e da humanidade. Maravilha que o mero olhar não é capaz de apreender sozinho. Sem sentimento e coração, o Templo Dourado é apenas pedra branca. Nada mais.


***
Gurudwar = o nome que se dá aos templos do sikhismo
Adi Granth ou Granth Sahib = livro sagrado do sikhismo, que é uma compilação dos ensinamentos dos 10 Gurus sikhs e de santos sufis e hindús. O último Guru sikh, Guru Arjun Dev, antes de falecer, "nomeou" o livro como o eterno guru dos Sikhs.
Tekas = nome dado às batidas das tablas.

9 comentários:

Tatiana disse...

Índia - mistérios- curiosidade - contemplação - amor - respeito

Não necessariamente nesta ordem, mas, ao meu humilde ver, vc nos passa todos esses estágios! Namastê

joseph disse...

Flávio.

Muito bom! Nunca tive a curiosidade de conhecer os mistérios de uma cultura que se mostra tão intrigante.
Mas, através dos seus relatos, estou ficando interessado e tenho mostrando o seu blog a mais pessoas amigas que compartilham da mesma idéia.
Parabéns e muito sucesso
Joseph

Alguma aldeota disse...

Fla,

Este texto está especialmente lindo.

Malu disse...

Querido filho
Ansiosamente, como faço todos os dias,procuro seus textos para viver suas emoções.A demora ou a falta do comentário não significa que não o tenhamos lido. Vc não tem idéia como as pessoas que os lêem (como a d.Carmen, o Thierry, a Patricia, o Betinho) os apreciam. Junto com vc desvendamos - ou tentamos desvendar - os mistérios dessa India que te impressiona tanto.
Bjks mil.

Cesar disse...

Cara, quando eu crescer eu quero ter uma barba dessa...

Tatiana disse...

Flavito,
ontem, levei o Dudu num salão de beleza pra cortar o cabelo hihihihi... pois bem, lá tinha uma lulher com vários pedaçõs de cabelos nas mãos, eis que um senhor revendedor perguntou de onde vinha, quanto era e como vendia... a mulher respondeu que os cabelos vinham da Índia, todo ano existe um ritual em que mulheres cortam seus cabelos em oferenda a um Deus e dai uma empresa revende esses "tufos" para o mundo... ela explicou muito simplificadamente, vc sabe sabe algo sobre? Quando tiver uma oportunidade pode nos contar? e se é verdade mesmo.. abraços

Mauro disse...

Maravilha.
Será que eu aguentaria esta viagem?
Bjs

Lúcia Helena disse...

Flávio, como já mencionei em outros comentários, desde que Joseph falou-me sobre seu blog, tenho "viajado" com ele.
Vc é muito divertido ao fazer os comentários sobre esse misterioso país. Mas o que houve com o ..."emoções eu vivi"...falou tão pouco sobre o Taj Mahal..., também não o censuro pela perda das palavras, penso que diante dele também as perderia, abraço.

Tia Thê disse...

Flávio

A minha emoção foi crescendo à medida que lia o seu texto!À medida que vc ia nos revelando a maravilha que estava por vir!
Flávio, sem corujice, esta foi demais!!!!
Bjos da tia