sábado, 19 de julho de 2008

Ônibus 174

Cimento, terra e água, barro, cascalho. Materiais que compõem as ruas de Délhi. Muito tapume do metrô também. E carros, muitos carros. E bicicletas, e riquixás, e rebanhos de vaca, e motocicletas levando famílias inteiras. Mas os reis de aço incontestáveis dessas ruas são os ônibus. Grandes e barulhentos, com lataria cheia de cicatrizes que denotam as incontáveis batidas e atropelamentos em que já se envolveram, os ônibus são o terror das ruas. “Vrrrum! Vrrrum! Saiam da frente! Saiam da frente!”

Aqui não é como o Rio de Janeiro, onde os ônibus tentaram reinar, mas não conseguiram devido à audácia do motorista carioca, cuja maior diversão parece ser fechá-los sempre que possível. É quase como se o som do freio a ar fosse bálsamo para os ouvidos estafados de quem está atrás do volante.

Os ônibus aqui representam, portanto, a violência urbana, que, de outra forma, praticamente não existe. São eles que matam, batem (parece que os ônibus atropelam e matam cerca de 100 pessoas por mês em Délhi). Os ônibus representam também a poluição intensa que o caótico trânsito de Délhi emite diariamente. Enfim, ônibus aqui é tudo de ruim.

Mas, por contas das ditas “cicatrizes” em sua imagem, o governo da cidade está tentando substituir as famigeradas lotações que operam a chamada “linha azul”. A assassina linha azul. E é por conta disso que, hoje, se vê ônibus da Marcopolo rodando por aqui. Mas, como não se pode substituir toda a frota em um estalar de dedos, os governo decidiu também substituir o diesel pelo gás natural.

É aí que vem a maior das ironias. Outro dia, voltando para casa, descendo a “Outer Ring Road”, passa-me ao lado um ônibus desses velhos que dizia “the greenest bus line in the world, operated on CNG”. Greenest? Rapaz, só se for por conta da grama que cresce nas covas dos muitos que esses ônibus já mataram.

Quem diria. Sem saber, a assassina linha azul já havia começado, anos atrás, a realizar processo de “troca de créditos de carbono”: a cada um que mata, mais verde e, portanto, mais fotossíntese! A assassina linha azul? Que nada! A pioneira linha azul!

PS: Hoje, no trânsito, pensando sobre a tal estratégia "pioneira" da linha azul, cheguei à conclusão de que, de pioneira, ela não tem é nada. É que aqui não enterram, mas cremam, os mortos! Portanto, a cada morte, mais fumaça no ar. Na verdade, a linha azul, além de poluir ao funcionar, polui ao matar também! É assassina mesmo!


3 comentários:

Cesar disse...

Isso é que é: ganham créditos de carbono e retiram muitos carros (e motoristas) para sempre das ruas (e da vida)! Isso é que é política contra o aquecimento global. O resto é brincadeira!

Lola disse...

Flavinhoo!!!!
To adorando ler o su blog, só passei a acompanhar rescentemente!! vc realmente é muito inteligent! adorei sua reflexão sobre a linha azul, poucas pessoas chegam a esse tipo de conclusão brilhante!!! ;)
Te adoro!!!
Lola

Tia Thê disse...

Flávio

Seus comentários sobre a Índia me assustam. Assustam a nós, cariocas, acostumados com todo o tipo de violência!

Que horror!