sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Nos palácios do rei Akbar




Mil e uma noites. Noites de luar intenso. O rei descansa em sua torre de pedra – uma torre aberta, sem paredes, que não é uma prisão – feita para que ele pudesse observar a lua cheia, sentir a brisa e suas poesias. O rei era um poeta, um admirador dos pequenos detalhes da vida.

Vivas a Akbar, o grande. Nele, convergiam as religiões da Índia. Seus templos ecléticos – seus palácios! – refletiam arquitetonicamente o sincretismo que ele próprio adotou. Ao trono mughal, além de caligrafia, pôs também pavões e cobras; nas paredes e pilastras de seus palácios e mesquitas, os arcos retilíneos ganharam detalhes rebuscados e curvas sinuosas. Sua linhagem vinha da Ásia Central, mas seu peito acolheu todo o Hindustão. Para o cidadão comum, isso seria heresia; mas para o rei, isso foi magnânimo. Allahu Akbar!

Cada passo que deu, deu para dentro da Índia, em direção ao coração da Índia, em direção a seu próprio coração. Ao sul a capital. Nada de beirar as fronteiras do norte, de onde vieram seus antepassados, para onde queriam voltar seus antepassados. Ordenou fosse adotada esta terra, esta gente, este lugar. A mensagem de Akbar: não sejamos estranhos em nossa própria terra.

Em Agra e Fatehpur Sikri, vêem-se até hoje seus mosaicos construídos em pedra vermelha. Um vermelho cheio de nuanças e tons, pontilhado por gotas brancas de não sei o quê. Na presença de Akbar, as próprias pedras recusaram-se a ser de uma cor só.

Suas histórias sobrevivem até hoje na Índia, assim como as presenças sincréticas em sua vida: Birbal, o conselheiro; Jodhaa, a esposa hindu e rajput.

Os filhos de Akbar, no entanto, não souberam seguir seu exemplo. Jahangir voltou para o norte, para Lahore, para a Caxemira; Shah Jahan voltou para a Agra, mas não para as lições de seu avô. Preferiu o mármore suntuoso e as linhas e ângulos retos, tão presentes em seu famoso mausoléu*. Aurangzeb, radical, levou ao extremo seu fundamentalismo e, ao morrer, matou também o Império, que já não mais merecia sobreviver. Eram conquistadores ou reis do mundo, do universo**. Mas nenhum deles era o grande**. 

Sem Akbar, sem tolerância e aceitação, o Império caiu de maduro.


* Shah Jahan foi quem ordenou fosse construído o Taj Mahal.

** "Jahan" significa mundo, em persa; e "gir", conquistador. "Alam" quer dizer universo (Aurangzeb intitulava-se Alamgir). "Akbar" significa, literalmente, "o grande".

terça-feira, 19 de agosto de 2008

A noite dos gafanhotos.


Independência da Índia. Feriado nacional. Fim de semana prolongado. O que fazer? Não há muitas opções: é ficar em casa ou viajar. Surge a oportunidade de voltar a Agra com Eric e Marcela, amigos do trabalho. Vou.

O carro chega na hora marcada. Eu já estava a postos e disposto. O dia amanheceu bonito, eu estava cantando um clássico da Alcione: Ilha de Maré. Bollywoodianamente dançava na rua, mimetizando com a boca as palavras da canção.

O motorista sai do carro e dá a conhecer ao mundo a carranca com que acordou de manhã. Comeu e não gostou. Ou melhor, não comeu e não gostou, pois não havia tomado café da manhã. Logo viria a saber o porquê de tanto desgosto com a vida: o seu nome. Mulçumano de carteirinha, em vez de chamar-se Ahmed ou Mohammed, o motorista chamava-se Viki. Deve ter sido sacaneado a vida inteira pelos coleguinhas de escola e mesquita. É provável que, na adolescência, tenha tentado ser homem bomba, mas suponho que nenhuma organização terrorista tenha concordado em ter um mártir com esse nome. Acabou no ramo do turismo, como motorista de van na Índia. O triste fim de Policarpo Quaresma.

A viagem começa às 8h30 da manhã. Tarde para o tradicional padrão das 6h da manhã. Bastante trânsito na rua. Só chegamos em Agra às 13h, depois de passar no Maharaja Hotel, um hotel de beira de estrada onde o motorista abusadamente impôs uma parada de meia hora para tomar seu café da manhã.

O Hotel onde almoçaríamos não conseguiu lidar com o fato de que não tínhamos feito reserva para seu concorridíssimo restaurante 5 estrelas. Era descaso demais com sua pompa de hotel exclusif. Descemos ao restaurante, e, de fato, o lugar estava cheio... Cheio de mesa vazia. Mesmo assim, o Hotel fez questão de não perder a pompa e nos deixou esperando em pé, até que nos sentamos quase que por conta própria.

Reflito, em silêncio, sobre os curiosos padrões em que parecem se dividir as viagens na Índia: ou tudo vai muito bem, obrigado (as pessoas são gentis, o motorista é profissional, você é bem-vindo e bem recebido) ou tudo vai aos trancos e barrancos, com altas doses de desrespeito e abuso. Bem-vindo à Índia.

Pouco há do que reclamar a partir daí. A satisfação natural que decorre de um bom almoço foi completada pelo deslumbre que se sente ao ver, mesmo que pela segunda vez, a esplendorosa tumba de mármore da rainha Mumtaz Mahal. O dia terminou com a visita ao Forte de Agra e sua grandiosa vista do Taj.

Cansados, tocamos para o Hotel, que, segundo o guia, era “pertinho” de Agra. Doce ilusão. Demoraríamos pelo menos 2h para chegar no tal Hotel, que ficava em Bharatpur, logo depois de cruzar a fronteira com o Rajastão, onde tivemos de parar brevemente numa guarita para pagar a “taxa interestadual”: uma espécie de ICMS que incide não sobre o movimento de mercadorias, mas de pessoas. A Índia parece ter levado às últimas conseqüências a mercantilização da vida.

Ao cruzarmos a fronteira, entramos no estado indiano mais conhecido por seu fabuloso deserto: o Deserto do Thar, dito o sétimo maior do mundo. Mesmo lá, chove – pouco, mas chove – durante as monções. E tinha acabado de chover. As ruas estavam molhadas (leia-se, barro por todo lado), e havia uma infestação de insetos. Mas não era mosquitinho não. Eram gafanhotos. Gafanhotos coloridos, claro. Se não fossem coloridos, não seriam indianos.

Chegamos ao hotel em meio a uma nuvem de gafanhotos. Era quase como se estivéssemos numa excursão bíblica, para conhecer as 7 pragas do Egito. Mas o pior era que o Hotel, por ser um “Heritage Hotel” (uma espécie de Maharaj Hotel de beira de estrada, mas com um fundo de verdade), era todo aberto e não tinha aquele ambiente hermético, típico dos hotéis pasteurizados de hoje em dia. Havia, portanto, gafanhotos por tudo quanto é lado. Desde a recepção até o restaurante. Aliás, solicitei fosse meu check-in feito no restaurante, onde havia menos gafanhotos, pois não tive estômago para encarar a infestação na recepção. Enquanto preenchia os campos do papel, cheguei à conclusão de que a “heritage” desse hotel era uma herança maldita.

O concièrge do Hotel me escoltou até o quarto. No caminho, a visão do inferno. Na estreita escada por que tive de subir para chegar ao quarto, fui assediado diversas vezes por gafanhotos desnorteados pela luz. Quando cheguei no corredor final, o chão inteiro (e a porta do quarto) estavam tomados por insetos. O concièrge, notando em minha face uma mistura de desgosto e terror, apagou a luz para tentar me confortar. Foi pior. Acabei pisando nuns cinco sem perceber. Senti-me como Indiana Jones em busca da arca perdida (no caso, o quarto perdido).

À noite, na cama, no ar-condicionado, ouvia gafanhotos e mais gafanhotos batendo alucinadamente na janela do quarto. Isso sem falar dos grilos que saíam pelo ralo do banheiro. Parecia filme de terror: “a noite dos gafanhotos assassinos”. Respeirei fundo, olhei para as paredes do quarto uma última vez antes de apagar a luz. Tudo limpo. Rezei pai nosso e ave maria e fui dormir.

À noite, sonhei com a Índia que conheci oito anos atrás. Nessa época, passei também, durante as monções, por infestação similar: só que, no caso, era de lesmas. Acordei mais leve. Dei-me conta de que isso é o que a Índia singnifica para mim: um eterno desafio, talhado para me tirar da minha zona de conforto e esgarçar ao máximo meus limites. É isso o que me atrai aqui.



segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Diário da África


Quem quiser saber mais sobre a África lusófona, recomendo fortemente a leitura do blog DIÁRIO DA ÁFRICA, escrito por um jornalista amigo meu, Carlos Alberto Jr.

Enquanto eu resolvi vestir o paletó de linho e sair por aí pela Índia, ele ficou de calça jeans e camisa mesmo, e resolveu fazer um diário sobre seu dia-a-dia em Luanda, Angola.

Vale à pena! E vale tanto que resolvi inaugurar, com o Diário da África, minha lista de Blogs recomendados.

domingo, 10 de agosto de 2008

Embalos de sábado à noite



Quarta-feira de chuva. Monções voltaram para lembrar que ainda estão aí. Trânsito caótico. Mais caótico que o normal. Preso no carro, claustrofóbicamente preso no carro; preciso sair, mas não sei para onde ir. Casa é longe demais. Prefiro parar, ver um filme talvez. "Mr. Francis, toca para o Connaught Place". "No sir, very bad traffic there sir." E agora? Enfrentar as ruas até meu shopping está fora de cogitação. Vem-me à mente uma idéa que, há muito, espreitava os cantos negligenciados da aula de dança. Era quarta-feira, dia de aula no Hotel Ashok. Vam'bora.


A aula acontece no subsolo do Hotel, numa discoteca chamada Capitol. Olho à minha volta; sou o único ocidental. Cobram 1.500 rupias por um mês de aula. Achei meio carinho. Mas resolvo pagar uma aula experimental. Poucos segundos depois, a professora anuncia o estilo de dança que será ensinado ao longo do mês: valsa vienense.


O quê?!? Valsa Vienense? Desde quando esse gênero faz parte do "Isso é sério?", pergunto perplexo. Era sério. Os professores tomam o centro da pista e ensinam os passos: um pra frente, um pra trás; dois para o lado esquerdo, outros dois para o lado direito. É preciso dar uma curvadinha nos joelhos a cada passa lateral. Plié! Ensaio os passos, e os professores me corrigem: "não mexa tanto a cintura; isto aqui não é salsa, é valsa!". De súbito, todas os meus devaneios de reinar absoluto numa aula de dança na Índia vão pelo ralo.



Ensaiados os passos, o DJ põem a música. Em vez da esperada música de câmara, a vitrola toca o que eles chamam aqui de indi-pop, o estilo bollywoodiano de música. Sinto-me como se estivesse num filme surrealista de Buñuel: aula de dança numa discoteca de hotel, dançando valsa vienense ao som de Bollywood. Alguma coisa está fora da ordem. Por sorte, não era o único marinheiro de primeira viagem naquela noite. Havia também outros, de forma que consegui pegar como par uma outra menina também recém-chegada: Simran. Uma agente imobiliária, que era designer gráfica nas horas vagas. Mais um elementos surrealista na minha noite.


Finda a aula, recebo um convite para a festa no sábado, em comemoração aos 60 anos da academia. Festa à fantasia; tema: Havaí. Chega o sábado, tiro o pó da minha camisa florida, visto meu chapéu panamá. Garboso, vou à festa que também é num hotel. Chego lá e percebo que os que querem dança têm de fazê-lo num palco, observados pelos olhares atentos de uma platéia sentada. Constrangedor. Encontro a professora, e ela me diz, dentro em pouco, a festa passará para o lado de dentro do salão. Maravilha. Vou deixar para dançar lá dentro, mais privê, menos exposto. A dança no palco acaba, e todos entram. No salão fechado, o DJ começa com indipop. Tudo bem. A segunda música certamente será salsa. Mas não. O indipop não pára. Vara a noite. Frustrado, vou falar com a professora. Pô! Se quisesse ir à boite, não iria lá e nem iria fantasiado! Mas ela diz que não tem jeito: uma vez que o indipop começa, não pode mais parar.


Volto frustrado para a casa. Retiro meu chapéu panamá como um general retira seu exército da guerra, Olho para trás, para a desta, e percebo: seja a música valsa ou salsa, aqui só se dança indipop.




quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Que se Skoda


Novelas, novelas. Das 6, das 7 e das 8. Pelo menos, no Brasil, as novelas têm horário certo. Aqui, na Índia, parece que fazem parte, naturalmente, de cada projeto da vida. A compra do meu automóvel, por exemplo, tem sido uma bela novela. Após muitas idas e vindas, não só na compra mas também no aluguel de um carro, meu veículo está finalmente para chegar. Mas, como uma novela nunca acaba de repente, e o último capítulo sempre se repete no sábado, a minha está terminando, mas ainda não terminou.

Tudo começou com a visita do pessoal da Skoda, a montadora Tcheca transformada em Alemã (o grupo Volks adquiriu-a recentemente), que instalou fábrica em Aurangabad, no estado da Maharashtra (cuja capital é Bombaim) para vender para o mercado indiano. Essa visita é a primeira parte do longo processo por que um diplomata tem de passar para adquirir um veículo novo, sem imposto, na Índia.

A segunda parte é a tal da carta de isenção, dada pelo governo indiano, que demora, sozinha, um mês para sair. Olhando-se a carta não se compreende o porquê de tanta demora. Se a carta tivesse letras em alto-relevo e um papel bom, como convite de casamento, até se justificaria a demora. Mas não é nada disso. É apenas a concretização de um processo burocrático; é a transformação da burocracia em papel (aliás, sua forma preferida de concretizar-se). E esta transformação demora.

A fase seguinte é a mais dolorosa: o cheque. Aqui, paga-se tudo à vista, e com carros não é diferente. Poderoso checão de 10 mil dólares. É até mais difícil tirá-lo do talão. Parece que não quer sair. E confesso que, agora no finalzinho da novela, teria preferido que não tivesse mesmo saído... Teria sido mais fácil adquirir o veículo com imposto e tudo, e esperar o reembolso. O problema é que, dizem as mais línguas, o reembolso nunca sai. Aqui na Índia, só o desembolso funciona. É fato.

Concluída essa fase, a bola fica com a fábrica, que produzirá o carro especialmente para o diplomata. Foi-me prometido que o carro sairia do forno em duas semanas, um mês no máximo. Mas já se vão dois meses e meio, o dinheiro já saiu da conta, e nada de carro. “Fabia, cadê você, meu amor, que não chega? Não queres compartir nosso lar? Meu amor, venha, venha que vos espero.” Meus pensamento desesperam-se em devaneios, compondo cantigas de amor com o nome do modelo do carro: Fabia.

Após dias sem notícias e ligações vãs, a palavra chega a meus ouvidos que o carro deverá estar em Délhi na segunda-feira. Festa, celebrações! Durmo sossegado. Mas, alegria de pobre dura pouco. Chega segunda e nada. Cadê o carro? O gato comeu. Resposta padrão: it will take some time. Next week. Next week.

Next week uma ova! Ligo para o Mr. Vasishtha, da concessionária. Vasishtha, explique-se, é o nome de um grande sábio indiano (um rishi!), que era dono da vaca outorgadora dos desejos. Ligo para ela e digo-lhe: “He Maharishi! Mera car kahan hai?* Use sua vaca outorgadora dos desejos para concretizá-lo!” Ele ri e diz: next week only, sir. O sangue sobe à cabeça. “Por quê?!?” Constrangindo, ele diz: “dê-me 10 minutos”. Dou.

Dez minutos depois, Vasishtha liga. Meu carro já saiu de Aurangabad e está no caminhão. O problema é que o caminhão ficou preso na estrada, por conta de uma multidão de adoradores de Shiva, uma das entidades máximas do hinduísmo, que resolveu marchar em pregrinação justo no momento em que a cegonha estava na estrada. Carro agora só na quarta à tarde.

Dois dias! Só dois dias! Regojizo-me. Chega quarta, cadê o carro? Continua na estrada. Por quê? Ligo para a transportadora (chega da mediação dos rishis!) e descubro que houve falta de diesel nos postos das rodovias, e o caminhão ficou sem combustível e atrasou a entrega. Agora, só sexta-feira.

Eterna expectativa. Só me resta esperar o fim da semana. Enquanto isso, tento entreter-me pensando que outro problema imprevisível poderá ocorrer e atrasar meu carro, mais uma vez, para “next week”. Esforço inútil, no entanto. Nenhuma imaginação do mundo, por mais criativa que seja, consegue prever os problemas que só a Índia, com sua realidade peculiar, consegue produzir.


*He Maharishi! Mera car kahan hai? = Ó grande sábio! Onde está meu carro?