domingo, 10 de agosto de 2008

Embalos de sábado à noite



Quarta-feira de chuva. Monções voltaram para lembrar que ainda estão aí. Trânsito caótico. Mais caótico que o normal. Preso no carro, claustrofóbicamente preso no carro; preciso sair, mas não sei para onde ir. Casa é longe demais. Prefiro parar, ver um filme talvez. "Mr. Francis, toca para o Connaught Place". "No sir, very bad traffic there sir." E agora? Enfrentar as ruas até meu shopping está fora de cogitação. Vem-me à mente uma idéa que, há muito, espreitava os cantos negligenciados da aula de dança. Era quarta-feira, dia de aula no Hotel Ashok. Vam'bora.


A aula acontece no subsolo do Hotel, numa discoteca chamada Capitol. Olho à minha volta; sou o único ocidental. Cobram 1.500 rupias por um mês de aula. Achei meio carinho. Mas resolvo pagar uma aula experimental. Poucos segundos depois, a professora anuncia o estilo de dança que será ensinado ao longo do mês: valsa vienense.


O quê?!? Valsa Vienense? Desde quando esse gênero faz parte do "Isso é sério?", pergunto perplexo. Era sério. Os professores tomam o centro da pista e ensinam os passos: um pra frente, um pra trás; dois para o lado esquerdo, outros dois para o lado direito. É preciso dar uma curvadinha nos joelhos a cada passa lateral. Plié! Ensaio os passos, e os professores me corrigem: "não mexa tanto a cintura; isto aqui não é salsa, é valsa!". De súbito, todas os meus devaneios de reinar absoluto numa aula de dança na Índia vão pelo ralo.



Ensaiados os passos, o DJ põem a música. Em vez da esperada música de câmara, a vitrola toca o que eles chamam aqui de indi-pop, o estilo bollywoodiano de música. Sinto-me como se estivesse num filme surrealista de Buñuel: aula de dança numa discoteca de hotel, dançando valsa vienense ao som de Bollywood. Alguma coisa está fora da ordem. Por sorte, não era o único marinheiro de primeira viagem naquela noite. Havia também outros, de forma que consegui pegar como par uma outra menina também recém-chegada: Simran. Uma agente imobiliária, que era designer gráfica nas horas vagas. Mais um elementos surrealista na minha noite.


Finda a aula, recebo um convite para a festa no sábado, em comemoração aos 60 anos da academia. Festa à fantasia; tema: Havaí. Chega o sábado, tiro o pó da minha camisa florida, visto meu chapéu panamá. Garboso, vou à festa que também é num hotel. Chego lá e percebo que os que querem dança têm de fazê-lo num palco, observados pelos olhares atentos de uma platéia sentada. Constrangedor. Encontro a professora, e ela me diz, dentro em pouco, a festa passará para o lado de dentro do salão. Maravilha. Vou deixar para dançar lá dentro, mais privê, menos exposto. A dança no palco acaba, e todos entram. No salão fechado, o DJ começa com indipop. Tudo bem. A segunda música certamente será salsa. Mas não. O indipop não pára. Vara a noite. Frustrado, vou falar com a professora. Pô! Se quisesse ir à boite, não iria lá e nem iria fantasiado! Mas ela diz que não tem jeito: uma vez que o indipop começa, não pode mais parar.


Volto frustrado para a casa. Retiro meu chapéu panamá como um general retira seu exército da guerra, Olho para trás, para a desta, e percebo: seja a música valsa ou salsa, aqui só se dança indipop.




6 comentários:

Malu disse...

Está pensando que ia encontrar suas aulas do Jaime Arôxa??!! ë só no Brasil! Mas, tudo é válido! Quem sabe da próxima vez, vc consegue dansar a salsa!
Bjks, boa sorte e muitas saudades!

Cesar disse...

É, dessa vez nem tenho mais o que falar. Faço minhas as palavras da minha mãe, hehehehe

abração

A. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A. disse...

Flávio,

O Paletó de Linho é biscoito fino e já foi adicionado na relação de sítios favoritos do Diário da África.

Grande abraço,
jr.

Alguma aldeota disse...

É querido, veja pelo lado bom, só na Índia você se veste de havaiano pra dançar valsa vienense, numa discoteca de hotel, e termina a noite sem sapatos de tanto dançar indipop!

hehehehe... Brincadeirinha!
Mas se o Buñuel estivesse vivo você bem que poderia mandar o roteiro pra ele!

Besitos
Isis

Tia Thê disse...

Flávio

Sugiro então vc dançar indipop (que não sei o que é!) Porque dançar sempre é bom, não?

Beijos da tia Theresa