terça-feira, 19 de agosto de 2008

A noite dos gafanhotos.


Independência da Índia. Feriado nacional. Fim de semana prolongado. O que fazer? Não há muitas opções: é ficar em casa ou viajar. Surge a oportunidade de voltar a Agra com Eric e Marcela, amigos do trabalho. Vou.

O carro chega na hora marcada. Eu já estava a postos e disposto. O dia amanheceu bonito, eu estava cantando um clássico da Alcione: Ilha de Maré. Bollywoodianamente dançava na rua, mimetizando com a boca as palavras da canção.

O motorista sai do carro e dá a conhecer ao mundo a carranca com que acordou de manhã. Comeu e não gostou. Ou melhor, não comeu e não gostou, pois não havia tomado café da manhã. Logo viria a saber o porquê de tanto desgosto com a vida: o seu nome. Mulçumano de carteirinha, em vez de chamar-se Ahmed ou Mohammed, o motorista chamava-se Viki. Deve ter sido sacaneado a vida inteira pelos coleguinhas de escola e mesquita. É provável que, na adolescência, tenha tentado ser homem bomba, mas suponho que nenhuma organização terrorista tenha concordado em ter um mártir com esse nome. Acabou no ramo do turismo, como motorista de van na Índia. O triste fim de Policarpo Quaresma.

A viagem começa às 8h30 da manhã. Tarde para o tradicional padrão das 6h da manhã. Bastante trânsito na rua. Só chegamos em Agra às 13h, depois de passar no Maharaja Hotel, um hotel de beira de estrada onde o motorista abusadamente impôs uma parada de meia hora para tomar seu café da manhã.

O Hotel onde almoçaríamos não conseguiu lidar com o fato de que não tínhamos feito reserva para seu concorridíssimo restaurante 5 estrelas. Era descaso demais com sua pompa de hotel exclusif. Descemos ao restaurante, e, de fato, o lugar estava cheio... Cheio de mesa vazia. Mesmo assim, o Hotel fez questão de não perder a pompa e nos deixou esperando em pé, até que nos sentamos quase que por conta própria.

Reflito, em silêncio, sobre os curiosos padrões em que parecem se dividir as viagens na Índia: ou tudo vai muito bem, obrigado (as pessoas são gentis, o motorista é profissional, você é bem-vindo e bem recebido) ou tudo vai aos trancos e barrancos, com altas doses de desrespeito e abuso. Bem-vindo à Índia.

Pouco há do que reclamar a partir daí. A satisfação natural que decorre de um bom almoço foi completada pelo deslumbre que se sente ao ver, mesmo que pela segunda vez, a esplendorosa tumba de mármore da rainha Mumtaz Mahal. O dia terminou com a visita ao Forte de Agra e sua grandiosa vista do Taj.

Cansados, tocamos para o Hotel, que, segundo o guia, era “pertinho” de Agra. Doce ilusão. Demoraríamos pelo menos 2h para chegar no tal Hotel, que ficava em Bharatpur, logo depois de cruzar a fronteira com o Rajastão, onde tivemos de parar brevemente numa guarita para pagar a “taxa interestadual”: uma espécie de ICMS que incide não sobre o movimento de mercadorias, mas de pessoas. A Índia parece ter levado às últimas conseqüências a mercantilização da vida.

Ao cruzarmos a fronteira, entramos no estado indiano mais conhecido por seu fabuloso deserto: o Deserto do Thar, dito o sétimo maior do mundo. Mesmo lá, chove – pouco, mas chove – durante as monções. E tinha acabado de chover. As ruas estavam molhadas (leia-se, barro por todo lado), e havia uma infestação de insetos. Mas não era mosquitinho não. Eram gafanhotos. Gafanhotos coloridos, claro. Se não fossem coloridos, não seriam indianos.

Chegamos ao hotel em meio a uma nuvem de gafanhotos. Era quase como se estivéssemos numa excursão bíblica, para conhecer as 7 pragas do Egito. Mas o pior era que o Hotel, por ser um “Heritage Hotel” (uma espécie de Maharaj Hotel de beira de estrada, mas com um fundo de verdade), era todo aberto e não tinha aquele ambiente hermético, típico dos hotéis pasteurizados de hoje em dia. Havia, portanto, gafanhotos por tudo quanto é lado. Desde a recepção até o restaurante. Aliás, solicitei fosse meu check-in feito no restaurante, onde havia menos gafanhotos, pois não tive estômago para encarar a infestação na recepção. Enquanto preenchia os campos do papel, cheguei à conclusão de que a “heritage” desse hotel era uma herança maldita.

O concièrge do Hotel me escoltou até o quarto. No caminho, a visão do inferno. Na estreita escada por que tive de subir para chegar ao quarto, fui assediado diversas vezes por gafanhotos desnorteados pela luz. Quando cheguei no corredor final, o chão inteiro (e a porta do quarto) estavam tomados por insetos. O concièrge, notando em minha face uma mistura de desgosto e terror, apagou a luz para tentar me confortar. Foi pior. Acabei pisando nuns cinco sem perceber. Senti-me como Indiana Jones em busca da arca perdida (no caso, o quarto perdido).

À noite, na cama, no ar-condicionado, ouvia gafanhotos e mais gafanhotos batendo alucinadamente na janela do quarto. Isso sem falar dos grilos que saíam pelo ralo do banheiro. Parecia filme de terror: “a noite dos gafanhotos assassinos”. Respeirei fundo, olhei para as paredes do quarto uma última vez antes de apagar a luz. Tudo limpo. Rezei pai nosso e ave maria e fui dormir.

À noite, sonhei com a Índia que conheci oito anos atrás. Nessa época, passei também, durante as monções, por infestação similar: só que, no caso, era de lesmas. Acordei mais leve. Dei-me conta de que isso é o que a Índia singnifica para mim: um eterno desafio, talhado para me tirar da minha zona de conforto e esgarçar ao máximo meus limites. É isso o que me atrai aqui.



10 comentários:

Alguma aldeota disse...

Fui lendo teu texto e pensando no quão horroroso e perturbador foi essa experiência. O fluxo de minha leitura caminhava pro negativismo.

Porém, ao final, no último parágrafo, você concluiu de uma forma tão sublime que fiquei emocionada.

Querido, é maravilhoso (por mais doloroso que seja!) sair da zona de conforto e esgarçar os limites.
Go ahead! Isso é puro crescimento!

Beijos de saudade...
Isis

Diário da África disse...

Meu querido Paletó de Linho,

O grande lance dessas nossas vidas no estrangeiro é nos ajudar a testar nossos limites. E assim vamos testando.

Abraços do Diário da África

Jane disse...

Na verdade enquanto vc falava de gafanhotos achei engraçadíssimo mas suportável, mas quando citou que a viagem anterior os gafanhotos foram substituídos por lesmas, meu Deus!!!
Estou repensando minha viagem pra India...

Tia Jane da Marcela e do Eric

Anna Julia disse...

Primo, Estivemos na sua casa ontem.
Saudades... Tudo bem por ai?
Achou um gafanhoto na mala?
Bjs,
Julinha

Mauro disse...

Fla
Pq vc tem que aturar motorista mau encarado?
Seus relatos me deixam ansiosos para conhecer a India, esse paraíso na Terra.
Socorro, help, SOS.
Bjs

Malu disse...

Flavito querido

Estava me lembrando que vc colocou tela na janela do seu quarto, pq entrava, muito de vez em qdo, uma inocente borboletona que aqui chamamos de bruxa. Com esse "puro crescimento", como bem observa "alguma aldeota", vc vai tirar, daqui pra frente, qq bicho desses de letra.

Ainda bem que vc aceita esses desafios!
De todo modo, é sempre emocionante ler as suas bem contadas e interessantes aventuras na India.
Bjs e enorme saudade!

Cesar disse...

Curiosamente tb lembrei de pragas bíblicas e de Indiana Jones enqto li o texto. E imagino q a infestação anterior por lesmas deve ter sido bem melhor ou, ao menos, bem mais lenta, certo?

Boa sorte na próxima!
Abs

Tia Thê disse...

Querido Flavio
Para meu deleite, retomo hoje a leitura de seu emocionante blog, interrompido pelas férias.
Muuitas saudades da
tia Theresa

paradigmas universal disse...

BABAQUEIRAS POR BABAQUEIRAS PREFIROS AS MINHAS

João Marcelo disse...

Putz, eu lendo seu blog e esquecendo que você trabalha com o Eric... diz que o João, da COCIT, manda um abraço :)

Aqui em Praia temos a nossa própria praga de gafanhotos, que acompanha o vento seco do sahara e vem comer a pouca vegetação local... uns monstros, alguns com 10cm ou mais de comprimento... eu, que detesto insetos, sofro paca :) Mas podia ser pior... podiam ser aranhas!