quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Que se Skoda


Novelas, novelas. Das 6, das 7 e das 8. Pelo menos, no Brasil, as novelas têm horário certo. Aqui, na Índia, parece que fazem parte, naturalmente, de cada projeto da vida. A compra do meu automóvel, por exemplo, tem sido uma bela novela. Após muitas idas e vindas, não só na compra mas também no aluguel de um carro, meu veículo está finalmente para chegar. Mas, como uma novela nunca acaba de repente, e o último capítulo sempre se repete no sábado, a minha está terminando, mas ainda não terminou.

Tudo começou com a visita do pessoal da Skoda, a montadora Tcheca transformada em Alemã (o grupo Volks adquiriu-a recentemente), que instalou fábrica em Aurangabad, no estado da Maharashtra (cuja capital é Bombaim) para vender para o mercado indiano. Essa visita é a primeira parte do longo processo por que um diplomata tem de passar para adquirir um veículo novo, sem imposto, na Índia.

A segunda parte é a tal da carta de isenção, dada pelo governo indiano, que demora, sozinha, um mês para sair. Olhando-se a carta não se compreende o porquê de tanta demora. Se a carta tivesse letras em alto-relevo e um papel bom, como convite de casamento, até se justificaria a demora. Mas não é nada disso. É apenas a concretização de um processo burocrático; é a transformação da burocracia em papel (aliás, sua forma preferida de concretizar-se). E esta transformação demora.

A fase seguinte é a mais dolorosa: o cheque. Aqui, paga-se tudo à vista, e com carros não é diferente. Poderoso checão de 10 mil dólares. É até mais difícil tirá-lo do talão. Parece que não quer sair. E confesso que, agora no finalzinho da novela, teria preferido que não tivesse mesmo saído... Teria sido mais fácil adquirir o veículo com imposto e tudo, e esperar o reembolso. O problema é que, dizem as mais línguas, o reembolso nunca sai. Aqui na Índia, só o desembolso funciona. É fato.

Concluída essa fase, a bola fica com a fábrica, que produzirá o carro especialmente para o diplomata. Foi-me prometido que o carro sairia do forno em duas semanas, um mês no máximo. Mas já se vão dois meses e meio, o dinheiro já saiu da conta, e nada de carro. “Fabia, cadê você, meu amor, que não chega? Não queres compartir nosso lar? Meu amor, venha, venha que vos espero.” Meus pensamento desesperam-se em devaneios, compondo cantigas de amor com o nome do modelo do carro: Fabia.

Após dias sem notícias e ligações vãs, a palavra chega a meus ouvidos que o carro deverá estar em Délhi na segunda-feira. Festa, celebrações! Durmo sossegado. Mas, alegria de pobre dura pouco. Chega segunda e nada. Cadê o carro? O gato comeu. Resposta padrão: it will take some time. Next week. Next week.

Next week uma ova! Ligo para o Mr. Vasishtha, da concessionária. Vasishtha, explique-se, é o nome de um grande sábio indiano (um rishi!), que era dono da vaca outorgadora dos desejos. Ligo para ela e digo-lhe: “He Maharishi! Mera car kahan hai?* Use sua vaca outorgadora dos desejos para concretizá-lo!” Ele ri e diz: next week only, sir. O sangue sobe à cabeça. “Por quê?!?” Constrangindo, ele diz: “dê-me 10 minutos”. Dou.

Dez minutos depois, Vasishtha liga. Meu carro já saiu de Aurangabad e está no caminhão. O problema é que o caminhão ficou preso na estrada, por conta de uma multidão de adoradores de Shiva, uma das entidades máximas do hinduísmo, que resolveu marchar em pregrinação justo no momento em que a cegonha estava na estrada. Carro agora só na quarta à tarde.

Dois dias! Só dois dias! Regojizo-me. Chega quarta, cadê o carro? Continua na estrada. Por quê? Ligo para a transportadora (chega da mediação dos rishis!) e descubro que houve falta de diesel nos postos das rodovias, e o caminhão ficou sem combustível e atrasou a entrega. Agora, só sexta-feira.

Eterna expectativa. Só me resta esperar o fim da semana. Enquanto isso, tento entreter-me pensando que outro problema imprevisível poderá ocorrer e atrasar meu carro, mais uma vez, para “next week”. Esforço inútil, no entanto. Nenhuma imaginação do mundo, por mais criativa que seja, consegue prever os problemas que só a Índia, com sua realidade peculiar, consegue produzir.


*He Maharishi! Mera car kahan hai? = Ó grande sábio! Onde está meu carro?

5 comentários:

Patricia disse...

Oi Flavio! Nossa, mas que situacao voce foi passar, hein? Acho que seria mais facil ir ate a rodovia, se desbravar entre a procissao de Shiva e ir pessoalmente resgatar a tao sonhada "Fabia", rsrs. Nao sei o que eh pior nessas horas, saber que tera um carro, mas que nao chega nunca, ou nunca comprar um carro e ficar na esperanca de como seria se tivesse um...
beijos!

Cesar disse...

Nossa, que peregrinação msm... Fico cansado só de ler, de imaginar o sofrimento. Achei que vc já estivesse com teu carro faz tempo!!!

Agora, haja burocracia, hein?! Consigo pensar em várias formas de simplificar isso tudo. Chega ao limite do incompreensível. Se bem que, por outro lado, pelo menos é uma forma de matar as saudades do Brasil, né?! hehe

Abs

Alguma aldeota disse...

Huahuahuahuahuhauhauhaua!

Isso não tem fim! É inacreditável!

Acho que há algo de obscuro nessa Fábia que não te quer!

Um beijo enorme
Isis

Tia Thê disse...

Flávio querido


Essa Índia não te dá moleza mesmo!!

Haja paciência!

Mas não se desespere. Acredito que, até na Índia, tudo se resolve!!!

Um beijo saudoso da
tia Theresa.

Malu disse...

Será que vale a pena sofrer e se chatear tanto por causa de um carro!!
Ah! Essa India, tão desejada, não é fácil não!!
Bjs no coração!