quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sete sentidos, várias lições

Pedra, pau, terra e cascalho; cimento, vidro, espelho. Lixo, muito lixo. Pó. Os elementos são conhecidos, mas o conjunto que eles compõem nesta parte do mundo é novo, intrigante. Nesse todo, misturam-se ainda as árvores, que, apesar de abundantes (há quem diga, com orgulho, que Délhi é a cidade mais verde do mundo), parecem perdidas, fora do lugar. A figura se completa com o tingimento de cores variadas: a cor do acostamento, a cor dos riquixás, dos tapumes do metrô, dos turbantes, das roupas das pessoas… Cores vivas e desbotadas ao mesmo tempo. Paradoxos em carne viva, a cada esquina.

Para digerir inteiramente a experiência, a primeira coisa a fazer-se é treinar o olhar. Isso leva tempo. A gente aprende na escola que a visão é um dos sete sentidos, mas o que falta dizer é que os olhos não nascem sabendo ver. Precisam, eles também, aprender o seu métier. Isso leva tempo e exige flexibilidade e desapego. Não é algo banal.

Já os ouvidos… Ah, os ouvidos! Esses aqui aprendem rápido. O som constante da buzina dos carros, dos comerciantes solicitando incansavelmente sua atenção, dos mendigos batendo ao vidro do carro... Tudo oferece a pressão necessária para que a audição comece logo a discriminar entre o que ouvir e o que ignorar. O perigo é começar a ignorar tudo.

Os limites dos demais sentidos também são testados aqui: o olfato, com o constante fedor no ar (que, mais tarde, se torna apenas o cheiro daqui); o tato, com a sujeira na sola dos pés (andar de sandália é uma experiência bem diferente da que se tem no Brasil); o paladar, com os temperos exagerados da culinária local (a pimenta às vezes é tanta que queima língua, o que faz sumir o gosto das coisas por um tempo). Para o marinheiro de primeira viagem, tudo pode ser um desafio aqui.

Mas o barato de toda essa história é ultrapassar esses desafios, é perdurar na adversidade, até dar-se conta de que nunca foi, de fato, uma adversidade; até dar-se conta de que tudo isso é simplesmente humano. É aceitar que os daqui desenvolveram uma cultura específica, ajustada às condições locais, e que, apesar de ser, é certo, um modus vivendi bem diferente do que estamos acostumados, é humano mesmo assim. E como somos todos seres humanos, todos temos a mesma capacidade de viver dessa forma.

Uma vez ultrapassada essa fase, tudo começa a ficar mais fácil. A má vontade do motorista de riquixá, as tendências estelionatárias dos taxistas e dos pequenos comerciantes, a hierarquia e o preconceito inerentes ao sistema de castas acabam virando parte do cotidiano. Opera-se, nesse momento, o milgare da vida, pois só ela, com a rotina incansável do seu dia-a-dia, é que consegue fazer que Ocidente e Oriente se unam num mesmo tempo e espaço.

Para os que estão dispostos a alargar os seus limites internos, morar na Índia é o melhor remédio.


terça-feira, 23 de setembro de 2008

Arroz


Queridos leitores, antes de mais nada (ou antes de tudo, para os que preferem essa expressão), peço-lhes desculpas pelo longo silêncio. Não é que tenha desejado terminar o blog ou atualizá-lo com menos freqüência. Não é nada disso. Na verdade, chamem-me de doido os que nisso não acreditam, mas acho que foi algo kármico.

Sim, refletindo hoje à luz do sol da tarde, creio ter entrado em uma nova fase da minha estada na Índia. Já se vão seis meses desde que aqui cheguei, e a fase dos descobrimentos (ou era dos descobrimentos, para os que preferirem dar um tom ”Hobsbawm” à minha narrativa) já encerrou seu ciclo histórico.

Adentro agora calmamente, quase sem dar-me conta, em um novo momento, no qual a rotina passa a imprimir seu ritmo, a ditar minhas experiências. Uma rotina que é imperceptível, sutil; o próprio cotidiano da vida.

Por favor, meus caros leitores, não me compreendam mal: não é que a Índia tenha deixado de surpeender(-me); não é que coisas raras e estranhas não aconteçam mais. Pelo contrário! Acontecem sim, e com freqüência. Mas pode talvez ser que já me tenha acostumado a elas, e, por isso, já não me inspiram a escrever com a mesma intensidade do passado.

Demorei a ver e a aceitar isso. Tive de passar longos momentos entedientes e enervantes, sentado à frente da tela branca do computador, sem sequer conseguir compor uma frase decente. Só então dei-me conta de que o dia-a-dia se havia imposto sobre minha vida.

A comprovação final, curiosamente, veio hoje, enquanto escrevia este relato. Vejam vocês, queridos leitores, que hoje, em vez de sair para jantar no meu shopping, resolvi lançar-me à empreitada inédita (ao menos para mim é inédita) de fazer arroz em casa. Duas xícaras de arroz, meio tablete de caldo Knorr, quarto xícaras de água. Horas e horas de preparo (o fogão aqui em casa parece novo e maneiro, mas é uma porcaria). A água seca, e provo resultado. Mas me arrependo imediatamente. Realmente, ainda tenho muito o que aprender em matéria de cozinha.

Moral da história: quando o simples ato de preparar arroz vira novidade, é porque a era da rotina chegou.