quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Doce mistério



Um buraco negro, diz a enciclopédia, é “um elemento do universo formado no colapso gravitacional”. Essa definição, entretanto, não menciona a outra maneira pela qual se forma um buraco negro: o colapso organizacional.

Essa foi a conclusão a que cheguei depois de que um buraco negro criado por colapso organizacional se formou sobre minha mesa. Foi um processo lento, quase imperceptível, mas constante, que terminou por criar um poderoso ralo sobre minha escrivaninha. Em torno dele, tudo revolve, apesar de não possuir centro aparente de sucção. Após observá-lo muito atentamente, sem conseguir interferir em sua atuação desorganizacional, concluí que ele suga principalmente papéis, cartões de visita, convites, canetas, grampeadores, CDs e, ocasionalmente, meu telefone celular. Poucas são as coisas que conseguem escapar da sua voracidade. O rolo de fita adesiva, por exemplo, até hoje está impressionantemente no mesmo lugar. Deve ser por que até hoje não precisei dele.

Por vezes, o buraco negro regorgita alguma coisa, num movimento que descobri ser típico dos buracos formados daquela forma. Como se fosse mágica, surge algo sobre mesa, que não sei de onde veio, nem como veio e, pior, não sei para onde irá. Os objetos regorgitados podem ser classificados em quatro categorias: (i) muito importante e como não vi isso antes, mas agora é tarde; (ii) pitoresco, colorido e divertido; (iii) conta do mês passado, com envelope fechado ou aberto; e (iv) não tinha jogado isso fora?

Há pouco, dei-me conta de um outro fenômeno: o buraco negro da minha mesa está expansão. Mês passado, conseguiu expandir-se para o sofá, a estante e o chão em frente à porta. Insaciável, parece-me que, agora, está tentando engolir o telefone e os objetos da mesinha ao lado. O computador já sucumbiu, pois iniciou a semana sem conseguir ligar. Os técnicos disseram que era um vírus, mas, para mim, a causa era óbvia: o campo gravitacional em expansão.

Venho contemplando formas de reagir à esse fenômeno da natureza que se instalou em meu escritório. A primeira opção é arrumar a mesa; mas sei por experiências passadas que essa técnica é trabalhosa e nada permanente: o buraco negro volta a formar-se pouco tempo depois. A segunda opção seria conseguir uma nova mesa, ao lado da atual, para ver se consigo esgotar a capacidade de expansão do buraco negro; mas acho que isso enfrentará resistências da pessoa com quem divido a sala.

Resta-me, portanto, seguir observando o funcionamento do “horizonte de acontecimento”, da fronteira de ação desse buraco negro. Como, por ética científica, não gosto de interferir no meu objeto de estudos, vou deixar o buraco negro como está até segunda-feira que vem, para ver se, durante o fim de semana, descubro como revertê-lo e evitá-lo. Mas isso só se eu não tiver coisa melhor para fazer.


8 comentários:

bia disse...

Oi querido primo,
entendo perfeitamente o seu drama. Acontece com alguma frequência na minha mesa... Mas não desista!!
Muitas Saudades
Bia, Marcos, Felipe e Rafael
p.s. quando nos vemos de novo?

Tom disse...

"Do caos, se fez a luz..."
Encare o buraco negro da sua mesa como um caldo de caos criativo, de onde - e só de onde - pode emergir a criatividade e a iluminação. Desconfio de pessoas que mantêm tudo na mais perfeita ordem...
P.S. não foi desta vez que nos encontramos na Índia, pena, mas não faltarão oportunidades, não necessariamente na Índia...

Cesar disse...

É, meu irmão, cuidado, muito cuidado. Buracos negros causam distorções espaço-temporais. Dada tamanha proximidade com um buraco negro, podes, quem sabe, tornar-se o 1o homem a viajar no tempo!!!! Livre-se logo deste fenômeno pouco compreendido da física ou as consequências podem ser devastadoras...

abraços

Malu disse...

Filhão

Eu tinha um grande professor de literatura que dizia que era sinal de inteligência quem conseguia trabalhar numa mesa desorganizada.
Ok, eu sei que vc é inteligente, mas não exagera. Daqui a pouco vc não se acha mais.
Bem, de todo modo o seu texto está muito bom! Eu ri muito!

Bjks mil e até já.

Mauro disse...

Já convivi com diversos problemas como este, inclusive com vc em outras ocasiões. Me lembra o filme o Cheiro do ralo. A eliminação ou redução deste problema é relativamente simples basta vc querer. Não é nada dificil. Eu até poderia ajudar, mas não creio ser a pessoa certa. Pena. Mas adorei ler o texto.
Bjs

Tia Thê disse...

Flávio

Eu também morri de rir...Deve ser porque conheço muito bem esse fenômeno...aqui em casa acontece muito! Ha,ha,ha!!!!

Ah, Flávio vc é o máximo!
Beijos
Te amo.
Tia Thê.

Afonso Loureiro disse...

Caro Flávio,

Sigo o seu blog há alguns meses e optei por o nomear para o prémio Dardos.

«Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger, emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Este prémio obedece a algumas regras:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos.»

http;//aerograma.afonsoloureiro.net

Camila disse...

Hehehe...
Muito bom o texto!