terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Série: personagens cotidianos




Lá vai ele, sozinho, no meio do nada, no meio do escuro. Caminhando assim num passo lento, meio torto, um andar meio coxo, desvencilhando-se dos carros que por ele passam sem reconhecerem sua pessoa. Ele segue adiante sem bússola, num destino incerto, até que some na escuridão do asfalto, da noite, no meio da multidão.


Da janela do meu carro, assisto à retirada desse senhor já de idade, cujo bigode é mais velho do que eu. Parece-me que sai em busca de um riquixá que tenha a necessária pachorra para levá-lo ao outro lado da cidade, onde mora com mulher e filhos. Muitos filhos. Mas não tantos quanto antes, pois um morreu ano passado, de acidente. No meio da rua, um carro abriu a porta de repente, e seu filho, que dirigia uma lambreta (provavelmente sem capacete), bateu. Foram muitos dias de hospital, que consumiram as já poucas reservas financeiras que ele havia economizado ao longo da vida. O filho morreu, e ele ficou sem nada. Só com a dor da perda. Uma tristeza que ele leva consigo a cada passo que dá.


Creio que por conta disso ele não dirige mais motocicletas. Diz não saber guiá-las. Mas acho que é bloqueio. Um trauma que se refelte em seu dirigir, por meio do cuidado que tem com ciclistas e motociclistas. Dá-lhes a preferência, deixa-os passar com paciência, trata-lhes como se fossem filhos. Eu fico impaciente com tanta morosidade. Esperneio, grito: chalô, chalô! Mas não adianta. Ele segue devagar e sempre, como se não desejasse mais disputar as hierarquias do tráfego.


Todos os dias, ele atravessa a cidade para me encontrar de manhã, em casa, onde me saúda com um sexagenário “Good Morning, sir”. Mostra-me então os poucos dentes que sobraram. Pega a chave do carro, abre a porta e, de vez em quando, o capô para ver o óleo, senta, dá a ignição e põe o cinto de segurança. Gestos simbólicos, que o transformam em carro. Desse momento até o fim do dia, ele e o carro são uma coisa só, até ele desgarrar-se mais uma vez do assento e tornar-se pedestre de novo.

Curiosa dupla personalidade desse senhor, que, de dia, é carro e, de noite, é gente.


5 comentários:

Cesar disse...

Flavio, não tente mais apressá-lo. Pelo seu texto dá pra sentir a dor da perda dele. Só consigo tentar imaginá-la ao vivo, e digo tentar pq só quem tem filho consegue vislumbrar o que seria perder um.

Além disso, é a calma dele que o leva e traz em segurança, todos os dias, nesse trânsito insano.

bjs
Cesar

Diário da África disse...

Caro,

Pelo seu belo trabalho, indiquei o blog ao Prémio Dardos.

"Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Este prémio obedece a algumas regras:

1) Exibir a imagem do selo;

2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;

3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos."

João Paulo Toledo disse...

Olá,

Indiquei o seu blog ao Prêmio Dardos.
"Com o Prêmio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Este prêmio obedece a algumas regras:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prêmio Dardos."

Saudações,
João Paulo Toledo
(http://angolajpt.blogspot.com)

Rafael disse...

testando

Malu disse...

Flavito

O seu texto está lindo!
Bjs