quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Justa homenagem

À minha cidade maravilhosa, da qual muito sinto falta, com todo meu amor.


Roda mundo, roda gigante


Corre, corre. O mundo em movimento. A terra roda, e a vida também. O sol nasce, o sol se põe; vem a lua, vai a lua. Os dias passam, e a vida também. Tudo passa. Por que, então, tanto stress?

Nada vai dar certo. Tá tudo em cima da hora. O dinheiro não veio. A urucabaca não passa. A coisa não sai do lugar. Meu Deus, e agora? Nada parece funcionar. Que haja mais esforço, que haja mais resolução. Quero ver o suor sair da testa. Esse troço tem que andar! Põe mais lenha na caldeira, soa o apito, a locomotiva não pode, não vai parar!

A cabeça roda, os pensamentos voam, e o mundo gira, gira. Tudo ao mesmo tempo agora. Meu pai, saravá! Bendito, louvado seja. Nada há de falhar.

Mas se falhar, que Deus nos acuda. Que ajude a catar os cacos que se espalharão por todo lugar...

Tempo, poderoso tempo! Enigmática esfinge que nos devora e desafia! Por que por vezes passas tão depressa; e por outras, tão devagar? Namastê, namaskar. Saudações, ó pai da criação. Criação: obra que apenas o tempo destruirá.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ensaio sobre a preguiça



O dia começa devagar, assim meio mole, sem vontade de sair da cama. A luz ameaça extrapolar a cortina. Os bocejos sucedem-se. Os braços estiram-se. O corpo espreguiça-se. Mas é tudo em vão. Os olhos não abrem, o dia não começa, o sono continua. A escuridão e o silêncio que ainda envolvem o quarto mantêm a noite dentro.

Mas fazer o quê? É segunda-feira, e o dever chama. Onde encontrar forças para enfrentar mais um dia, mais uma semana? A mente vasculha o corpo, buscando o que o faça levantar da cama. Lá de dentro, do vazio, surge a força capaz de mudar o torpor: fome. O estômago ronca. Memórias do café da manhã vêm à mente: a lembrança do cheiro do café. Aos poucos, o corpo começa a reagir, os dedos se mexem, os ossos estalam. A pele se arrasta pelos lençóis. A boca abre: uuáááá! Vamos lá. Avante.

Passos hesitantes tomam distância da cama. Primeiro ao banheiro, fazer a toalete. Em seguida, ao armário. Cueca, meia, camisa, calça, gravata, paletó. Os óculos, meu Deus, os óculos? Pronto. Puta que o pariu.

Passos hesitantes, mas valentes lançam-se para fora de casa. Jornal na porta, elevador no saguão, carro lá embaixo. Respira fundo. Roca o motor. Acelera. Partiu.

Em meia hora, o caminho. No caminho, as notícias. Nas notícias, algum descanso. Mas pouco. Em meia hora, o destino. Olhos que ardem, à medida que os passos encontram seu destino: o escritório.

Casa branca, brasão dourado. Escadas. Segundo andar. A mesa está lá, desarrumada. Só de pensar em arrumar, dá preguiça. Preguiça que persegue durante todo o dia.

A manhã passa como o vento. Vem o almoço, o calor da hora do almoço. A comida que pesa no estômago. A mesma comida que levanta de manhã, nina depois do almoço. Volta-se ao torpor, à vontade de não fazer nada. Muitas vezes esse nada concretiza-se depois do almoço. Outras vezes batalhas épicas são travadas com esse nada para torná-lo tudo. Um tudo produtivo.

A tarde termina, e com ela o dia também. O dia termina devagar, assim meio mole, com vontade de voltar para a cama. Sobretudo se for sexta-feira. Corpo cansado, olhos fechando. Passos firmes arrastam-se de volta ao carro. Ao trânsito. Em meia hora, a casa. Na casa, a cama. Na cama, a pergunta: até quando a vida será um ciclo interminável de preguiça e sono?

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Só para postar alguma coisa...


Nuvens, nuvens que passam. Céu claro, nuvens abaixo. Nuvens que passam. O tempo que corre com as nuvens. E o céu ainda azul e intocado, apesar das nuvens que passam abaixo. Nada mudou.

Quilômetros de terra, de mar. Atravessando continentes, atravessando culturas. Turbulências, calmarias. Assim também a vida, o tempo, o espaço. Será que de fato viajamos? Ou será tudo um jogo? Um jogo da consciência? Só Deus sabe...

Fuso horário. O espaço para de correr, mas o tempo continua. A viagem, do ponto de vista do tempo, só termina uma semana depois. Curiosa essa desconjuntura, esse descolamento. Uma dessas viagens faz-se de avião, a outra, de cama, dormindo, sonhando.

Mas tudo isso já foi, e aqui estou eu de novo. Namastê, namaskar. O que sobrou? Uma geleia geral. Tropicalizei a Índia em mim.

Acho que agora só metáforas. Cansei das análises antropológicas, sociológicas, morfosintáticas. Será, daqui por diante, uma análise “Mytzuplik”, que não se sustenta, caso se a vire do avesso.
Saudações!

segunda-feira, 2 de março de 2009

O início, o fim e o meio


Tempo e espaço. Portais tridimensionais. A capital da Índia, uma conurbação de 7 (alguns dizem 9) cidades, possui muitos. Lal Kot (736) e, sobre Lal Kot, Qila Rai Pithora (1180). Siri, Tughluqabad, Jahanpanah e Feroz Shah Kotla: cidades nascidas do boom imobiliário muçulmano do século XIV. Purana Qila e Shahjahanabad (1500 em diante): testemunhas da soberania mughal. Por fim, Lutyens' Delhi no século XX: a indelével marca do Ocidente. Sob tudo isso, Indraprastha: a lendária capital dos Pandavas, heróis da Mahabharata.

O século muda a cada quilômetro da cidade. Ou talvez a cada 500 metros. Ruas planejadas e espaçosas dão lugar a caminhos tortuosos e apertados. A arquitetura grandiosa do poder é substituida por prédios baixos, cinzas, decadentes ou por grandiosos fortes de tijolo vermelho. Tudo acontece de repente. A cidade nunca te avisa quando vai mudar. Resta-nos apenas contemplar o contínuo do tempo e espaço sendo subvertido a cada esquina.

O curioso é que não são apenas os prédios que mudam a cada quilômetro. As pessoas e as coisas mudam também. Carros brancos oficiais perambulam pelas ruas da cidade Nova, onde também rodam carros e indianos do ano. Carroças e riquixás compartem o apertado espaço da cidade velha, por onde ainda caminham, aos borbotões, os mesmo súditos do antigo império Mughal.
C
Destinos tão diferentes, dentro de uma mesma cidade. Resultados de uma História não linear, mas espiral, com períodos históricos que não terminam, apenas se sobrepõem. A noção única e soberana do tempo presente não dá espaço para passado e futuro.
C
A conseqüência disso tudo é Délhi: uma cidade onde há muitos presentes, todos diferentes, coexestindo em um mesmo lugar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Mulheres em construção


Elas passam coloridas, por vezes cheia de lentejoulas, pano esvoaçante sobre os ombros, cabelo longo, que desce liso pelas costas e que amarfanha na altura da testa, das costeletas.
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As mais novas vestem salwar-kameez ou camiseta e jeans e têm o olhar inocente, meio assustado, sempre voltado para o chão. Se olhos se cruzam, os delas abaixam mais rápido. As mais velhas, sem a vergonha típica da juventude, põem a barriga à mostra, o troféu que a gravidez deixou em seus corpos. O olhar é intenso, meio arrogante, um olhar de quem já é sogra.
C
É curiosa a situação da mulher na Índia. Transita entre extremos: liberdade e submissão. Paradoxo: mais um. Algumas trabalham, transam, transcendem. Modernidade. Outras, a maioria, são filhas, esposas, empregadas. Tradição. Não vale a pena julgar o que é melhor. São o que são, fazem o que fazem. Assim é.
C
Há na sociedade relutância em aceitar um novo papel. Idéias pré-concebidas de segundo sexo, de fragilidade, de incapacidade. O Governo não é alheio à discussão, mas toma o lado da maioria: o chefe da casa, do lar, é o homem. Sem ele, não há dinheiro, não há comida, não há casa. Há apenas viúvas e crianças. Há apenas relativamente capazes. A cidadania plena cometeu sati* na pira funerária.
C
À medida que os novos papéis crescem, o embate intesifica-se, abre-se, violenta-se. E a Índia noticia homens, em grupo, atacando um bar cheio de moças e moços em Mangalore. Beber não pode, interagir tampouco. Que fiquem em casa, com seus pais ou maridos, pois mulher só, ou mesmo só com amigos, na rua, é coisa indecente. Não é coisa que moça de família faça.
C
Elas vão aos trancos e barrancos. Ainda violentadas, por vezes odiadas, por vezes amadas. Deusas no cinema, empregadas em casa. Ainda sonham em casar, mas nem sempre são o sonho de seus maridos (o casamento foi arranjado). Mas são o que têm e sempre terão. Aos poucos, vão-se abrindo, vão sorrindo, enfrentando. Os homens vão-se entregando, admitindo. E assim vai, com jeitinho e sempre. Mas sem pressa, claro, como tudo por aqui.



*Sati é um antigo costume da religião hindu, hoje em dia proibido por lei, que obrigava moralmente a viúva a sacrificar-se viva na fogueira da pira funerária de seu marido morto.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

PAAN

Mascar paan, uma espécie de chiclete milenar, que consiste em pasta de areca envolvida por folhas de betel (com diversas variação nessa fórmula básica), é uma tradição em todo o sul da Ásia. 

É muito comum ver por aqui, nas ruas, gente cuspindo uma gosma vermelha, que nada mais é do que o "conseqüência salivar" de mascar esse negócio.

Eu sempre soube que o paan era uma iguaria muito apreciada por aqui, mas nunca achei que fosse tanto, ao ponto de ser usado como gosto de... 

Enfim, vejam o anúncio abaixo e compreendam.


OBS: Peço desculpas a meus caros leitores pelo longo silêncio, mas é que estive de férias, aproveitando a vida nas Arábias.