terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Mulheres em construção


Elas passam coloridas, por vezes cheia de lentejoulas, pano esvoaçante sobre os ombros, cabelo longo, que desce liso pelas costas e que amarfanha na altura da testa, das costeletas.
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As mais novas vestem salwar-kameez ou camiseta e jeans e têm o olhar inocente, meio assustado, sempre voltado para o chão. Se olhos se cruzam, os delas abaixam mais rápido. As mais velhas, sem a vergonha típica da juventude, põem a barriga à mostra, o troféu que a gravidez deixou em seus corpos. O olhar é intenso, meio arrogante, um olhar de quem já é sogra.
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É curiosa a situação da mulher na Índia. Transita entre extremos: liberdade e submissão. Paradoxo: mais um. Algumas trabalham, transam, transcendem. Modernidade. Outras, a maioria, são filhas, esposas, empregadas. Tradição. Não vale a pena julgar o que é melhor. São o que são, fazem o que fazem. Assim é.
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Há na sociedade relutância em aceitar um novo papel. Idéias pré-concebidas de segundo sexo, de fragilidade, de incapacidade. O Governo não é alheio à discussão, mas toma o lado da maioria: o chefe da casa, do lar, é o homem. Sem ele, não há dinheiro, não há comida, não há casa. Há apenas viúvas e crianças. Há apenas relativamente capazes. A cidadania plena cometeu sati* na pira funerária.
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À medida que os novos papéis crescem, o embate intesifica-se, abre-se, violenta-se. E a Índia noticia homens, em grupo, atacando um bar cheio de moças e moços em Mangalore. Beber não pode, interagir tampouco. Que fiquem em casa, com seus pais ou maridos, pois mulher só, ou mesmo só com amigos, na rua, é coisa indecente. Não é coisa que moça de família faça.
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Elas vão aos trancos e barrancos. Ainda violentadas, por vezes odiadas, por vezes amadas. Deusas no cinema, empregadas em casa. Ainda sonham em casar, mas nem sempre são o sonho de seus maridos (o casamento foi arranjado). Mas são o que têm e sempre terão. Aos poucos, vão-se abrindo, vão sorrindo, enfrentando. Os homens vão-se entregando, admitindo. E assim vai, com jeitinho e sempre. Mas sem pressa, claro, como tudo por aqui.



*Sati é um antigo costume da religião hindu, hoje em dia proibido por lei, que obrigava moralmente a viúva a sacrificar-se viva na fogueira da pira funerária de seu marido morto.