segunda-feira, 2 de março de 2009

O início, o fim e o meio


Tempo e espaço. Portais tridimensionais. A capital da Índia, uma conurbação de 7 (alguns dizem 9) cidades, possui muitos. Lal Kot (736) e, sobre Lal Kot, Qila Rai Pithora (1180). Siri, Tughluqabad, Jahanpanah e Feroz Shah Kotla: cidades nascidas do boom imobiliário muçulmano do século XIV. Purana Qila e Shahjahanabad (1500 em diante): testemunhas da soberania mughal. Por fim, Lutyens' Delhi no século XX: a indelével marca do Ocidente. Sob tudo isso, Indraprastha: a lendária capital dos Pandavas, heróis da Mahabharata.

O século muda a cada quilômetro da cidade. Ou talvez a cada 500 metros. Ruas planejadas e espaçosas dão lugar a caminhos tortuosos e apertados. A arquitetura grandiosa do poder é substituida por prédios baixos, cinzas, decadentes ou por grandiosos fortes de tijolo vermelho. Tudo acontece de repente. A cidade nunca te avisa quando vai mudar. Resta-nos apenas contemplar o contínuo do tempo e espaço sendo subvertido a cada esquina.

O curioso é que não são apenas os prédios que mudam a cada quilômetro. As pessoas e as coisas mudam também. Carros brancos oficiais perambulam pelas ruas da cidade Nova, onde também rodam carros e indianos do ano. Carroças e riquixás compartem o apertado espaço da cidade velha, por onde ainda caminham, aos borbotões, os mesmo súditos do antigo império Mughal.
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Destinos tão diferentes, dentro de uma mesma cidade. Resultados de uma História não linear, mas espiral, com períodos históricos que não terminam, apenas se sobrepõem. A noção única e soberana do tempo presente não dá espaço para passado e futuro.
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A conseqüência disso tudo é Délhi: uma cidade onde há muitos presentes, todos diferentes, coexestindo em um mesmo lugar.