quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Ela vem chegando

Era apenas mais uma manhã solitária de outono em Londres. Logo cedo, o técnico do aquecedor reapareceu (já é a terceira visita), olhou o boiler, aumentou a pressão e foi embora, dizendo que o sistema inteiro precisará de limpeza. Ao que tudo indica, longas noites frias me esperam nesta cidade sem luz.

Saí de casa, já vestido. Fui comprar o café da manhã. Em pouco tempo, o motorista viria buscar-me com destino ao aeroporto. Era dia de autoridade, e lá vamos nós. Na fila do McDonalds (que, por incrível que pareça, é o mais próximo de uma padaria que eu pude encontrar por aqui), toca o telefone. “Flavio, é Margareth. Sua mudança está a caminho”.

Meu mundo caiu. Ela de fato me havia avisado que a mudança chegaria na terça-feira, mas só se eu pagasse uma conta de não-sei-quantas libras, que eu achava muito indevida e não paguei. Supus então que as coisas não vieram. Mas vieram. E agora?

Cancelei tudo. Não houve jeito. Tinha de esperá-la chegar. Corri para comprar salgadinhos e suco. É preciso festejar sua chegada.

E lá veio ela, toda apressada. Dividida em caixas de vários tamanhos. Caixas que eu vi empacotar e serem levadas embora por um caminhão sujo, acompanhada por homens maltrapilhamente vestidos. Eu iria antes, ela depois. Combinamos de nos encontrar lá. E aqui estamos nós agora, cara a cara. O reencontro.

Operação complexa. Um elevador para ajudar. Ela veio aos poucos, por partes. Foi entrando devagar, de volta à minha vida. Ela veio para ficar. Foi ocupando os espaços vazios, colorindo os cantos sem cor. Transformou meu apartamento em lar. São as memórias que trouxe do meu outro lar. São fotografias em forma de objeto que tirei para recordar.

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