terça-feira, 22 de março de 2011

Pensamentos aleatórios soltos ao vento

Melancolicamente, a cidade desperta cedo e veste-se para o trabalho. Esforça-se todas as manhãs para caber num sistema que a oprime (mas também que a gerou). Um processo lento e difícil de transformação do conforto em profissionalismo: roupa íntima, roupa térmica, meia, vestido apertado, algo de lã. Na hora de sair, porém, a revolta. O desconforto encontra sua válvula de escape nos pés. Será o frio lá fora? O resultado é o tênis, em vez do sapato de salto, que se torna merenda a ser consumida depois. Manter as aparências, só ao cruzar a porta do escritório.

A batalha diária da vida começa na ida. O deslocamento em massa anseia pela massificação do deslocamento, em vão. Recursos escassos para desejos infinitos, dizem. Nesse caso então, peixe pouco, meu pirão primeiro. Let passangers out first, please. Depois, podem-se acotovelar. This train is ready to depart.

No trem, o retorno à infância. Cabra-cega e pique-esconde. Fecho os olhos, conto até 10. Lá vou eu! Abro os olhos, busco rostos conhecidos. Cadê? De familiar, só a voz paterna que anuncia o fim da brincadeira: Next station is Victoria. Vitória de quem? Cheguei, mas não encontrei ninguém.

A essa altura, o conforto das manhãs deu lugar à pressa, que se impôs. Anda-se cada vez mais rápido, apesar de não se saber por quê. São as aparências, que já querem começar a manter-se. I’m busy, I’m busy, excuse me. Preciso trocar de sapato, a hora do tênis já passou. Virei trabalho. A transformação se completou. Brindemos com um cálice de líquido negro o pacto com a hiperatividade!

Ah, modernidade! Onde enterraste o metrônomo de nossos antepassados? Por que só te apetecem os prestos e os prestíssimos? O que fizeste com os andantes e os adágios? O turbilhão mental desse modus vivendi é insustentável. Mas o dinheiro fala mais alto e inibe o silêncio da calma. Vendamo-nos, senhores, pelo preço mais alto! Novos escravos no mercado de almas...

A batalha diária da vida se encerra no regresso. A violência física da auto-flagelação do dia dá lugar a uma quase vergonha de si mesmo à noite. Cansaço, exaustão. Hora de dizer não, de dizer chega, preciso ir, adeus. É um processo lento e difícil de transformação do profissionalismo em calma e conforto: banho quente, banho-maria, roupas largas de algodão doce. E agora, José? Tudo amanhã de novo. Entrementes, o mundo dos sonhos. Surge então a pergunta: vivemos a vida para sonhar ou vivemos o sonho da vida? Birbal diria: nenhum dos dois! Vivemos a vida para transcendê-la.

As loucuras do dia-a-dia levam-nos a devaneios sem nexo...

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