sábado, 16 de abril de 2011

Kali Maa

Pele azul, cabelos negros. Olhos que metem medo. Língua para fora, em fogo. Colar de caveiras sobre o peito. Sob seus pés, Shiva, senhor dos deuses, senhor do tempo. Há limite para o que és?

És a deusa em trevas. És a desconstrução da simbologia do mal. Se tudo em ti remete ao medo, ó deusa, por que então tantos ritos devocionais?

Enigma que instiga, deusa que inspira temor reverencial. Às favas com o que se crê! Serás a deusa daquilo que desejas ser. Que te importa se sangue, carne e escremento são vistos como impuros e imorais? Acolhe-os em sua divindade, torna-os sagrados, imortais.

Grito que urre da garganta. Som divino, produzido de forma espontânea. Som que amedontra. Grite, ó deusa, grite. Permita-nos escutar para sempre sua voz. Proteja-nos com sua força, ó deusa, proteja-nos com seu mirar.

Deusa, fique sempre comigo. Não me deixe desviar. O caminho é escuro, meus passos são lentos. Os medos são muitos, e os perigos, imensos. Deusa, ó deusa, cale os que me fazem voltar. Mantenha-me firme em minha rota. Não me permita nunca dela desviar.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Jongueiro


Frio, sem sal, assim meio indiferente, quase apático, frígido até. Nuances de uma alma abatida. São muitas mudanças, um funfa-funfa incessante, um vai-e-vem que não pára, a bunda que não senta na cadeira. Não há mesmo espírito que acompanhe esse ritmo! O corpo segue adiante, a alma fica para trás. Perde-se no contínuo do tempo-espaço, sem saber mais onde está, o que passou, o que ficou, o que virá. Difícil caminho o do viajante, que precisa ter o coração forte para encarar a viagem.

- Divino louvado seja!

- É o rosário de Maria.

Ressoam ecos de uma religiosidade resgatada, em cujas pias batismais se depositam todas as esperanças. Quando todas as máscaras caem, sobra apenas o rosto nu. Mas haverá espelhos onde se olhar? Haverá olhos para ver a face crua? Deus dirá. E quando disser, só se ouvirá o silêncio de suas palavras...

E agora, viver para o quê? Pensar no futuro não leva a nada. O viver é hoje, e hoje apenas. Nada mais a acrescentar!

Oferendas de incenso e mirra sobre o altar dos sete ventos. Assopre para bem longe o véu que cobre a verdade, meu pai! Saravá! Revele-a sem tardar!

Faça a sua parte, viajante, que o resto Deus fará.

- Machado!