terça-feira, 7 de julho de 2009

Ensaio sobre a preguiça



O dia começa devagar, assim meio mole, sem vontade de sair da cama. A luz ameaça extrapolar a cortina. Os bocejos sucedem-se. Os braços estiram-se. O corpo espreguiça-se. Mas é tudo em vão. Os olhos não abrem, o dia não começa, o sono continua. A escuridão e o silêncio que ainda envolvem o quarto mantêm a noite dentro.

Mas fazer o quê? É segunda-feira, e o dever chama. Onde encontrar forças para enfrentar mais um dia, mais uma semana? A mente vasculha o corpo, buscando o que o faça levantar da cama. Lá de dentro, do vazio, surge a força capaz de mudar o torpor: fome. O estômago ronca. Memórias do café da manhã vêm à mente: a lembrança do cheiro do café. Aos poucos, o corpo começa a reagir, os dedos se mexem, os ossos estalam. A pele se arrasta pelos lençóis. A boca abre: uuáááá! Vamos lá. Avante.

Passos hesitantes tomam distância da cama. Primeiro ao banheiro, fazer a toalete. Em seguida, ao armário. Cueca, meia, camisa, calça, gravata, paletó. Os óculos, meu Deus, os óculos? Pronto. Puta que o pariu.

Passos hesitantes, mas valentes lançam-se para fora de casa. Jornal na porta, elevador no saguão, carro lá embaixo. Respira fundo. Roca o motor. Acelera. Partiu.

Em meia hora, o caminho. No caminho, as notícias. Nas notícias, algum descanso. Mas pouco. Em meia hora, o destino. Olhos que ardem, à medida que os passos encontram seu destino: o escritório.

Casa branca, brasão dourado. Escadas. Segundo andar. A mesa está lá, desarrumada. Só de pensar em arrumar, dá preguiça. Preguiça que persegue durante todo o dia.

A manhã passa como o vento. Vem o almoço, o calor da hora do almoço. A comida que pesa no estômago. A mesma comida que levanta de manhã, nina depois do almoço. Volta-se ao torpor, à vontade de não fazer nada. Muitas vezes esse nada concretiza-se depois do almoço. Outras vezes batalhas épicas são travadas com esse nada para torná-lo tudo. Um tudo produtivo.

A tarde termina, e com ela o dia também. O dia termina devagar, assim meio mole, com vontade de voltar para a cama. Sobretudo se for sexta-feira. Corpo cansado, olhos fechando. Passos firmes arrastam-se de volta ao carro. Ao trânsito. Em meia hora, a casa. Na casa, a cama. Na cama, a pergunta: até quando a vida será um ciclo interminável de preguiça e sono?